30 junho 2006

Arte Contemporânea na Casa de Banho

A propósito, ou nem por isso, deste post da Pitucha. A minha dificuldade não está tanto nos nomes das pessoas. A minha dificuldade está em saber que desenho representa a casa de banho masculina e a feminina no Museu de Arte Contemporânea da Fundação Serralves. E não sou só eu que fica ali meia-hora indeciso a olhar para o desenho inscrito na porta. Aliás, eu penso que homens e mulheres vão trocados às respectivas. É que, sinceramente, gostava que alguém me apresentasse o responsável pela brilhante ideia de colocar representações de arte contemporânea a servir de indicação para casas de banho.

Carlos Malmoro

Da alarvidade

caminhávamos abraçados junto ao rio. o suave bater da ondulação nas rochas, embalava os últimos raios de sol. do rio evanescia uma neblina dourada a anunciar que aquele era, de facto, o primeiro dia do resto das nossas vidas. a neblina não nascia do leito do rio: deixava um interstício ténue de claridade prateada. atrás de nós, uma senhora de meia-idade anuncia alto e em bom som para as amigas: «hoje, já namorei com o meu marido». ainda estou traumatizado.
Carlos Malmoro

29 junho 2006

«Nome: Refugiado»

Sempre apreciei a poesia de Manuel António Pina. Agora, desde que vivo no Norte, degusto as suas pequenas grandes crónicas juntamente com o pequeno-almoço. Na última página do JN, lá está diariamente o olhar atento sobre a sociedade, um pormenor que se torna pormaior depois de ler a sua prosa ou a doce ironia de quem já leva muitos anos de vida e muitos mais de escrita. Porque nem todos conseguem transformar um dia mundial num murro no estômago que nos deixa sem ar. A saber:
«Os números significam pouca coisa. 8,4 milhões de refugiados em todo o Mundo é um número grande de mais para tocar a pequenez do nosso coração e da nossa razão, e corre o risco de banalizar o mal e justificar a nossa resignação Mas, de repente, descobrimos alguns dos rostos humanos, demasiadamente humanos, que se diluem na desmesura dos números e sobressaltamo-nos. Ontem, Dia Mundial do Refugiado, vi um homem ler na sua língua natal um poema de Ismail Kadare intitulado "Saudades da Albânia" e romper em lágrimas, imediatamente reprimidas. Falou durante alguns poucos segundos dos filhos distantes e repetiu inconvictamente a palavra "esperança". Quando regressou ao seu lugar, no Auditório do Museu Soares dos Reis (onde a Universidade do Porto evocou a tragédia dos refugiados), parecia mais só do que nunca. Por um momento, foi, diante de nós, um ser humano como cada um de nós, e teve uma existência concreta, um passado, uma memória, e medo, e esperança, e lágrimas, antes de perder-se de novo na escuridão dos números. Provavelmente nunca saberei o seu nome, mas há-de ter um nome. Um nome por que o chamam os amigos, um nome que talvez ele próprio já tenha, quem sabe?, esquecido. Um nome, porque ninguém se chama "refugiado". »
Carlos Malmoro

Da Urbanidade

Fernando Ruas incita a "correr fiscais à pedrada".

É o que acontece depois de se assistir a jogos tipo Portugal-Holanda.

Carlos Malmoro

28 junho 2006

Não me digam que há justiça

Este computador tem andado a portar-se mal. De meia em meia hora desliga. Como castigo, vai para arranjar/passear no centro europeu da marca, em Barcelona. O dono fica por cá: como tem trabalhado bem, só tem férias em Setembro.

Carlos Malmoro
PS: Nos próximos quinze dias, o índice de postagens é capaz de descer. Para além deste, só tenho o computador do trabalho. E esse serve para isso mesmo: para trabalhar. (tão ajuizadinho que eu sou...)

Fina Ironia

In two more years, my sweetheart, we will see another view
such longing for the past for such completion
What was once golden has now turned a shade of grey
I've become crueler in your presence

They say: 'be brave, there's a right way and a wrong way'
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years, there's only two more years
Two more years, there's only two more years
Two more years so hold on

You've cried enough this lifetime, my beloved polar bear
Tears to fill a sea to drown a beacon
To start anew all over, remove those scars from your arms
To start anew all over more enlightened

I know, my love, this is not the only story you can tell
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years (...)

We cover our lies with handshakes and smiles
We try to remember our alibis
We tell lies to our parents he hide in their rooms
We bury our secrets in the garden
Of course we could never make this love last
I said of course we could never make this love last
The only love we know is love for ourselves
We bury our secrets in the garden

Bloc Party - Two More Years

Perspectivas XLVI

A nitidez é inimiga da imaginação.

Carlos Malmoro

27 junho 2006

«Um livro em castelhano, editado primeiro em França?»


Admito tudo na literatura: admito perfeitamente que uma mulher guarde almas numa garrafa, que um dia demore setecentas páginas a passar, que exista uma máquina de fazer gelo no deserto ou que exista uma canção que só a personagem principal consegue escutar. Mas para um livro ir parar à minha lista negra, basta que seja inverosímil.

Neste momento estou a ler «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón. Amigos recomendaram, foi um sucesso de vendas e, simultaneamente – o que é quase inacreditável – teve boa crítica. Tudo para ser um sucesso. Acontece que logo na página vinte, aparece um miúdo de onze anos a fazer a pergunta que intitula este post. A menos que o miúdo seja um Eduardo Prado Coelho muito precoce, não estou a vislumbrar qualquer tipo de verosimilhança, de plausibilidade, nas suas palavras - eu, aos onze anos, estava mais virado para berlindes, levantar saias e jogar à bola. Enfim, coisas realmente importantes. E posso assegurar que cresci no meio de livros e com afecto por eles.

Porque, em literatura, é muito mais crível um gato ensinar uma gaivota a voar do que um miúdo de onze anos fazer aquela pergunta.
Carlos Malmoro

As vantagens do Mundial

No Domingo, pelo fim da tarde, decidimos acabar com o que restava do fim-de-semana na praia. E qual não foi o espanto quando reparámos que não se encontrava vivalma na dita. Uma praia pública tornada privada. Apercebemo-nos depois que era por causa do futebol. Consequência: sábado, lá estaremos de novo. É que isto de uma pessoa sentir-se dono de praias tem o seu quê de glamour…E, claro, é viciante.

Carlos Malmoro

Oxalá

Li algures que a partir do próximo ano lectivo os estudantes da Universidade de Coimbra vão prestar apoio a idosos, crianças e outras pessoas carenciadas da cidade do Mondego, em regime de voluntariado.
Sendo ainda cedo para mandar foguetes, não vão eles depois começar a fechar lares e infantários a cadeado, é bastante acertada esta medida: só assim os discentes poderão ver que existe um mundo para além das paredes das universidades e, claro, dos bares e das discotecas, e que os seus problemas têm uma dimensão risível perante os que irão encontrar.
Pode ser que definitivamente se apercebam de que tudo o que toda a sociedade paga para que possam estudar, é dinheiro que não vai para outras coisas, como por exemplo, para uma ajuda mais efectiva a esses cidadãos carenciados.
Então, talvez comecem a levar os estudos mais a sério, a passear menos os livros, a convencerem-se de que a soma que pagam para estudar é irrisória, comparada com o gasto que cada ano chumbado custa ao Estado, i.e., a cada um de nós. Nem que seja pelo efeito de peso na consciência: aquele dinheiro que poderia ir em auxílio dos menos protegidos que vão apoiar, vai agora para a repetição de um ano, consequência directa dos futuros Xô doutores terem andado um ano lectivo a servir de cobaias para os efeitos nefastos que o álcool provoca sobre as capacidades cognitivas. Ou, dito mais terra a terra, consequência directa das suas infindáveis bebedeiras.
Mas isto é apenas um desejo fruto do bom senso e, como muito bem sabemos, os desejos, ainda para mais se forem sensatos, raramente se realizam.
Carlos Malmoro

25 junho 2006

Van Gogh



Carlos Malmoro

Dos Estudos

Segundo um estudo publicado hoje no jornal Público, os «Portugueses são os que menos acompanham os jogos do Mundial». Também já li um outro estudo que afirma que olhar para os seios das mulheres dá mais cinco anos de vida. E amanhã tenho a certeza que sairá um outro estudo que dirá que o meu verdadeiro nome é Cátia Vanessa.
Carlos Malmoro

24 junho 2006

Perspectivas XLV

Há dez anos tinha uma pasta intitulada "Contabilidade Analítica" onde guardava fotos de mulheres pouco vestidas. Agora tenho uma pasta "Playboy" onde dissimulo a contabilidade da empresa. Decadência ou a ordem natural das coisas?
Carlos Malmoro

22 junho 2006

Perspectivas XLIV

Não repisar na lembrança do que passou nem insistir na perspectiva do que virá.

Carlos Malmoro

20 junho 2006

Prioridades

«Maria João Pires distinguida com Prémio Juan de Borbón
A pianista portuguesa Maria João Pires foi esta segunda-feira galardoada com o I Prémio Internacional de Música Dom Juan de Borbón.
O júri, presidido pelo compositor polaco Krzysztof Penderecki, pôs em destaque «os extraordinários valores musicais da vencedora na interpretação pianística e a sua intensa, prolongada e generosa dedicação ao ensino dos jovens».
Maria João Pires, um dos nomes cimeiros do piano contemporâneo, nasceu em Lisboa em 1944, começou a tocar aos três, com quatro deu o seu primeiro concerto e matriculou-se, muito jovem ainda, no Conservatório de Música de Lisboa.

Actualmente, dedica parte do seu tempo ao ensino no Centro para estudo das artes de Belgais, trabalho pelo qual recebeu recentemente o Prémio Unesco para a defesa dos direitos humanos.

Segundo Penderecki, a decisão do júri teve em consideração, não apenas as qualidades musicais da pianista, mas também os seus valores humanos.

Assinalou, a propósito, que este Prémio é o mais importante para a música de todos quantos são actualmente atribuídos na Europa. »
As bandeiras de Portugal por tudo quanto é canto e corpo são para celebrar isto, certo?
Carlos Malmoro

A Felicidade existe

Quando era novo, costumava - mais para embeiçar meninas do que propriamente por afirmação filosófica - dizer que não existia felicidade nem infelicidade. Apenas momentos felizes e infelizes. E acrescentava que a sabedoria da vida estava em saber ultrapassar os maus momentos e saborear os bons.
Hoje, passada que está mais de uma década sobre essas afirmações, afirmo que a felicidade existe. Encontrei-a na Marina de Viana do Castelo: é servida numa taça, num estival - mas chuvoso - sábado à noite e custa a módica quantia de 3,25€. Para os mais curiosos, deixo aqui a sua aparição:

Posso garantir que ao vivo ainda é mais deslumbrante.

Carlos Malmoro

19 junho 2006

Perspectivas XLIII

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro, a poesia é humana.

Carlos Malmoro

Mais uma vez

AAR vence.

Carlos

PS: A todos o meu mais profundo obrigado pelas palavras que aqui deixaram. Como este estaminé estava a ficar um pouco pesado, é tempo de falar de coisas fúteis, divertidas, solarengas, giras, sei lá...

18 junho 2006

O Monólogo do Silêncio

Quinze mil milhões de anos depois da origem do Universo, três a quatro mil milhões de anos depois do aparecimento das mais rudimentares formas de vida na Terra, quinze milhões de anos depois dos antropóides, cinco a seis milhões de anos depois do vosso mais remoto antepassado vaguear pelas planícies africanas, trezentos mil anos após o Homo Sapiens e cinquenta mil anos posteriormente ao Homo Sapiens-Sapiens ter colonizado a Europa, cerca de cinco mil anos após as primeiras cidades da Mesopotâmia, da invenção da Linguagem e, consequentemente, do terminus da Pré-História e do limiar da História, mais de dois mil anos após o vosso Salvador vos ter visitado, mais de oito séculos depois do vosso país ter sido fundado e mais de um minuto após a abertura mais pedagógica a que um monólogo pode aspirar, eis que decido quebrar-me a mim mesmo, ou seja, para quem ainda não desenvolveu as capacidades do Homo Sapiens-Sapiens ou não souber ler nas entrelinhas, vou romper o silêncio acerca do Silêncio.

Ao longo da peça, alguns de vós vão tossir sem nunca terem fumado um cigarro na vossa vida nem estarem constipados, outros vão murmurar à companheira coisas sem sentido e ela responder-vos-à coisas com menos sentido ainda, alguns vão ao bolso – ou à bolsa – buscar uma caneta, um isqueiro, um batôn e deixá-los-ão cair, e eu perguntar-vos-ei qual a necessidade de uma caneta, de um isqueiro ou de um batôn para que uma peça de teatro seja bem sucedida. Outros vão-se rir do texto, e o texto é trágico, outros vão deixar os telemóveis ligados, não por exibicionismos anacrónicos, é antes por uma ordem do vosso subconsciente para que, durante um segundo, possam desfrutar a paz de espírito que eu, o silêncio, não concedo nunca.


Atentai:
Nunca vos perguntastes por que é que os momentos mais desesperantes de qualquer entrevista são aqueles em que eu fico entre o entrevistado e o entrevistador?
Nunca vos perguntastes por que é que quando se pede alguém em namoro, mais angustiante do que a própria coragem de se dar esse passo, é o silêncio que se instala antes de escutardes a resposta, e que esse ínfimo momento dura horas, e a vossa cabeça só pensa que vamos ouvir uma resposta negativa ou que acabamos de viciar uma bela amizade;
Nunca vos perguntastes por que razão é que quando uma criança nasce em silêncio, o choro e os gritos são entoados pelos pais dessa criança?
Nunca vos perguntastes por que é que quando morre uma pessoa querida, mais doloroso que o acto fúnebre, é o silêncio que se instala no lugar da mesa que essa pessoa ocupava, no silêncio que se abate sobre o quarto onde dormia, é o silêncio que impera onde antes havia apartes, piadas, cumprimentos, onde antes havia pensamentos ditos em vós alta, palavras misturadas com gargalhadas, canções que vós acháveis ridículas e que agora escutais com toda atenção, com toda a saudade e com todo o regozijo que o coração humano pode comportar, enfim, onde antes havia o som da vida existe agora o silêncio da morte?

Se nunca colocastes a vós próprios estas questões, estão a ser levianos e cobardes perante mim; se nunca perguntastes por que é que sendo eu assim um elemento tão apaziguador, tão purificador, tão onírico e tão sagrado sou presença constante nos limites do vosso sofrimento, estão a ser negligentes e mentirosos perante vós próprios; se nunca vos questionastes por que é que sendo eu a fonte de eutimia eterna, o paraíso perdido, a paz, a saúde e a felicidade, em suma, a Vida, mas essa eutimia, esse paraíso, essa paz, essa saúde e essa felicidade são sempre meras consequências derivadas de causas do desassossego de espírito, da guerra, da doença da infelicidade, enfim, da Morte, é porque estão a ser hipócritas com a Humanidade e cegos para com a realidade.

Porque eu sou aquele que vos decifra esse vosso mundo bárbaro; porque eu sou aquele que vos apoquenta a alma; porque eu sou aquele que vos desagrega o amor; porque eu sou aquele que vos dita o destino, eu sou aquele a quem vós chamais de sexto sentido, eu sou aquele a que vós chamais o quinto elemento da Natureza, eu sou aquele que vós confundistes com Deus e eu sou aquele que vos recorda, durante todos e cada um dos momentos da vossa Existência, o absurdo dessa mesma Existência.

E agora que já vistes o poder de inquietação que eu possuo, agora que já sabeis que eu sou um prenúncio de sofrimento profundo, agora que já compreendestes que o ouro que dizem ser a minha essência absoluta, não é mais que a tinta dourada que reveste o Vaso de Pandora que realmente sou, com todos os males prontos a emanar do meu imo, agora que vós entendestes tudo isto, dou-vos um momento de pausa, saindo eu deste palco com a certeza de que, neste instante, já não represento para vós qualquer sublime paz, mas sim uma sumptuosa desolação.

Carlos Malmoro

17 junho 2006

Ok, eu falo sobre futebol

Mas também só digo que não precisam de ver o jogo Portugal-México.
Ele já está aqui:

Gosto de

Carlos Malmoro

Perspectivas XLII


A cavalo dado não se olha o dente. Menos pelo princípio d' «a intenção é que conta», mais por nunca esperarmos um puro-sangue.
Carlos Malmoro

16 junho 2006

Perspectivas XLI

O tamanho importa: do ecrã de cinema diz-se mágico. O da televisão adjectiva-se como «the little hopeless screen»*
Carlos Malmoro

* Leonard Cohen

Da certeza

Uma luminosidade ténue ia subjugando o silêncio do negrume da noite e revelava o espírito robusto das paredes da abadia. A aurora nascia pelos interstícios dos claustros espalhando uma luz límpida contra os blocos pardos da muralha conventual, enquanto os cantos gregorianos, que não se sabia muito bem se vinham das paredes ou dos homens, tal o abalo místico que estes propagavam, ecoavam na vastidão da nave principal da igreja. A missa primeira do dia terminava e era chegado o momento da primeira refeição. Entre pão de centeio, compotas, doces conventuais e leite com cevada, o monge alimentou pela primeira vez o corpo naquele dia.

Depois das graças pelos alimentos recebidos, o monge retirou-se para a sua cela para preparar a sua meditação diária. Hoje, tinha decidido pensar nas certezas humanas: na véspera, um noviço perguntara-lhe como poderia ter ele a certeza que, passados 20 anos, como o senhor monge, não estaria arrependido da opção que tomara. A resposta fundamentou-a em Deus: «Se tiveres sempre fé, Deus indicar-te-á o caminho».

A regularidade quotidiana com que se dedicava a estes períodos de reflexão, doutrinou-o a atentar, primeiro, no todo, e depois, na parte. Consequentemente, dividiria a sua meditação numa primeira parte relacionada com a humanidade no seu todo, e uma última com o sítio onde vivia, porque, em sua opinião, só assim poderia evitar o logro das generalizações simplistas e por vezes insidiosas.

«Meu Deus, a Humanidade precisa de mais certezas. Não basta saber que esta vida é finita e passageira, para os que têm fé, que Deus existe ou que a assumpção da incerteza da vida encerra, em si mesmo, uma certeza. Não; a Humanidade necessita de saber que é amada, que é respeitada, que os actos que a norteiam encaminham-na para um futuro melhor, enfim, que o trajecto que perfilhou, embora tumultuoso, a conduzirá a uma salvação. Ou melhor, nem é necessário tanto, meu Deus, a Humanidade precisa de saber, pelo menos, que a senda que está a trilhar fará brilhar uma luz ao fundo túnel, que é uma metáfora para Vos dizer e pedir que mostrai à Humanidade que há esperança. Ainda e sempre. Será por essa intenção que hoje rezarei.

» Meu Deus, nesta cidade a certeza é algo de exótico. As palavras mais escutadas são: presumível, putativo, possível, suposto, provável, alegado, candidato, aspirante ou pretendente, os verbos são todos conjugados no condicional e verbos como o ser, o ter, o ir, o estar, o querer e outros são sempre precedidos pelo futuro condicional do verbo poder.
»Nos meios de comunicação social, os réus são prováveis culpados e, segundo a Justiça desta cidade, os arguidos são presumíveis inocentes, mas que já sofrem a privação da liberdade nas penas preventivas como qualquer criminoso. Os candidatos a qualquer eleição já foram candidatos a candidatos e já são putativos detentores desse cargo, se as sondagens, com as suas margens de erro certeiras, assim o determinarem. Eu sei, meu Deus, que a expressão «margem de erro certeira» pode parecer um paradoxo ou laracha, mas não é: isto acontece mesmo. E é fiável…
Os governos desta cidade poderão querer distribuir de uma melhor forma os rendimentos dos impostos, poderão estar prontos construir uma nova linha de metro, poderão ser os impulsionadores de uma reforma que vai beneficiar as famílias mais carenciadas, poderão ter um projecto de desenvolvimento ecológico, … Perdão, Deus meu, que já estou a abusar dos exemplos rasteiros para Te transmitir uma coisa que Tu, com as Tuas infinitas sabedoria e vigilância já Te apercebeste, mas compreende que olhar esta cidade de fora para dentro, é, passe a hipérbole, como tentar ver o interior de um manicómio através dos seus vidros martelados: não há nada claro, nítido ou certo.
Peço-Te, pois, que faças jus ao nome que a cidade tem e Lhe reveles alguma luz. Deus meu, esta cidade precisa de uma certeza. Também por isso vou orar hoje.»
Carlos Malmoro

15 junho 2006

I call you by your name
I know not where you are
But somehow, somewhere, sometime soon
Upon this wild abandoned star

And I'm full of love
And I'm full of wonder
And I'm full of love
And I'm falling under
Your spell

Nick Cave - Spell

Da humanidade

Dois homens despedem-se dos familiares, antes de estes entrarem para o bloco operatório. Sentam-se na sala de espera, mas levantam-se e sentam-se e andam para trás e para a frente. Contrariamente ao seu quotidiano, os segundos parecem horas. Os olhares reconhecem-se. Um par de horas antes, um e outro tinham esbracejado por causa de uma prioridade numa rotunda. Naquele momento de desamparo e de impotência, apenas dizem simultanemente:
- Quer tomar alguma coisa?
Um desses homens era eu e acabámos a tomar um café.
Carlos Malmoro

Coito Interrompido

O doente passa dezoito horas em jejum de sólidos e líquidos. Passa ainda o stress do pré-operatório. A família não pensa noutra coisa durante dias. Falta ao trabalho para o acompanhar. Torres de ecrãs, cabos, monitores e demais maquinaria é deslocada para o bloco operatório. O doente desce ao bloco e despede-se do filhote. Entra. Meia hora depois dizem-lhe que não pode ser operado por um erro processual e que os Serviços Administrativos já fecharam. Só segunda-feira. Entretanto, passam quatro dias em que o tumor maligno tem a oportunidade de justificar o seu nome.
Mas parece que a selecção do país ganhou 1-0 a Angola. E isso é o que verdadeiramente importa.
Carlos Malmoro

14 junho 2006

A doze horas

do segundo round: AAR versus cancro. Aposto tudo em AAR: sei que se ele perder, perco tudo; como vai ganhar, vou ficar, aliás, continuar rico.
Carlos R.

Fernando Pessoa

13-06-1888 a ...

Carlos Malmoro

Gostava que

...Portugal vencesse o Campeonato do Mundo. Não por um qualquer patriotismo serôdio. Antes para ver a falência de certas empresas que anunciam à boca cheia a oferta dos seus produtos/serviços caso isso venha a suceder. Eu sei que não é uma atitude muito correcta da minha parte, mas também nunca gostei que me tomassem por parvinho.
Carlos Malmoro
PS: Post dedicado à Stapples, Toyota e Viagens Abreu. Três empresas que já me tentaram com essa «estratégia de marketing». Haja paciência.

12 junho 2006

A Sabedoria do Tempo

Estava a tirar uma garrafa de água numa daquelas máquinas de venda automática, quando me apercebi que, atrás de mim, o meu gesto estava a ser relatado por duas pessoas de idade:
«- Ele agora mete a moeda e escolhe o que quer.
- Mas em moedas ou em notas?
- Em moedas. Já escolheu, e agora sai a água e a ademasia*.
- E ele pegou na ademasia e meteu-a ao bolso sem conferir. Se fosse com um vendeiro**, de certeza que via se estava certa.
- É, hoje confia-se mais nas máquinas do que nas pessoas.»

Carlos Malmoro

*ademasia=troco
**vendeiro=empregado ou dono de café ou mercearia

10 junho 2006

Perspectivas XL

(statement)

Leio clássicos. Cito clássicos nos meus textos e, por vezes, nas minhas conversas. Não por vaidade intelectual, mas pela humildade de reconhecer que nunca escreverei com o génio que me permita expressar de um modo tão preci(o)so.
Carlos Malmoro

Mulland Drive

Ontem, 2:30 da manhã:
Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Foi a primeira vez na minha vida que passei naquela estrada. Paro e fico abismado. Quem me acompanha, pergunta o que se passa.

Há cerca de três meses, durante um sonho:
Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Conduzia rumo a um compromisso. Estava atrasado. Na curva, perco o controlo do carro, e embato contra uns marcos. Vou à casa que tem as luzes acesas e peço ajuda.
O resto da história – ou a explicação racional ou oculta – não interessam.
Carlos Malmoro

08 junho 2006

(Dincas, África)


No tempo em que deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

(Magias – versões de Herberto Helder)

06 junho 2006

Perspectivas XXXIX

Por vezes, não dizer o que se pretendia dizer é a melhor maneira de dizer o que não se disse.

Carlos Malmoro

05 junho 2006

Agradecimento Público

Xôdona Carlota:

Serve o presente como forma de agradecimento pelo facto de este estaminé ter um cantante, sem que isso signifique que os links vão parar ao rodapé do blog, nem a descrição que procede o título da chafarica* troque de sítio com o «Profile» ou os «Post Recentes» tenham emigrado para o título do blog. Isto é, o que usualmente costumava acontecer quando tentava colocar um cantante. Como tal, nomeio-a Consultora para os Assuntos Templatários do "Caixa Pandora". O contrato é vitalíco. Depois falamos da remuneração.
Para terminar, e num registo mais ajuizadinho, agradeço a cortesia que teve para comigo, dedicando-lhe a primeira música que aqui roda, tendo o blog tudo no sítio. (não resisti ao trocadilho...). Espero que goste.
Carlos Malmoro
*copirráighte Carlota

04 junho 2006

A mais bela e genial dedicatória

...que eu já li, não foi feita por nenhum grande poeta ou exímio prosador. Foi feita por António Variações. A dedicatória concretiza-se em apenas quatro palavras «A Fernando Pessoa que.». E ao não dizer mais nada do que isto, está a dizer tudo o que poderia ser dito para além disto.

Carlos Malmoro

Dúvida

Quando me dizem que «Vê-se logo que és gemiano», nunca sei se estão a inculpar-me de alguma falha imperdoável, se estão a fazer-me um rasgado elogio ou se estão apenas a demonstrar a sua suprema sapiência astrológica.
Carlos Malmoro

03 junho 2006

So when the birds fly south
We'll reach up and hold their tails
Pull up and out of here
And bridle the autumn gales
I give you my hand
The fingers unfold
To have and forever hold
To marry the untold blisses
And anchor this lost soul

Patrick Wolf - Tneigmouth - Wind in the Wires

02 junho 2006

Nacionalidade

Conduzi duzentos quilómetros entre hospitais, esperei quatro horas repartidas por diferentes salas de espera, vi gente a passar à minha frente, e andei feito saltimbanco de guichet para guichet. No meio disto tudo, não insultei ninguém, não conduzi feito Schumacher e - oh escândalo - fui educado e simpático com todo o pessoal. Uma de duas: ou estou louco, ou não sou português.
Carlos Malmoro

Avaliação dos Professores III

O mote deste século é "avaliai-vos uns aos outros"! E depois quem avalia o avaliador? Estão lançadas as bases para a criação do deus avaliador...

by Pitucha, na caixa de comentários deste post.

Carlos Malmoro

Camouflage

Por que estranhos e ínvios caminhos se metem a memória e o raciocínio para, de um momento para o outro, o pensamento saltar do jantar de sábado para a letra da música Camouflage, uma canção que não devo ouvir há 15-20 anos? Gostava que alguém me explicasse isto. Cientificamente, claro está.

Carlos Malmoro

Avaliação de Professores II

Existe uma certeza: os professores, como todos os outros profissionais, devem ser avaliados. Porém, há uma série de equívocos em toda esta história. Partindo de um pressuposto primário - avaliar significa fazer um juízo - como pode um pai ajuizar com isenção quando constitui uma parte interessada?

Depois, o outro equívoco: avaliar com objectividade. Um exemplo simples de como esta teoria é falível: um professor passa todos os alunos com dezoito. Nas provas nacionais têm a mesma nota. Outro aprova outra turma com doze, e nas provas nacionais também tiram doze. O primeiro professor é melhor que o segundo? E se os alunos de dezoito tivessem sido sempre alunos de dezoito e os da segunda turma sempre foram alunos de dez, mas nesse ano, fruto do ensino do professor, tivessem subido a nota em dois valores?

Finalmente, quem deve avaliar os professores? Como já ficou demonstrado em cima, não penso que os pais constituam bons avaliadores. Quer por serem parte interessada, quer por muitos portugueses não terem a formação necessária para o fazer. Também não penso que o ministério seja boa solução: quanto melhor forem as notas e o aproveitamento, melhores as estatísticas da UE, OCDE, etc, sobre o ensino português. Logo, melhor propaganda para o Governo (seja ele qual for). Por outro lado, os sindicatos atribuem nota vinte em piloto automático a todos os seus associados, excepto àqueles com uma cor política diferente da sua. Uma última hipótese: os professores avaliarem-se a eles mesmos. Mas lá voltaríamos nós ao velho, mas correctíssimo, pressuposto de que ninguém é bom juiz em causa própria.

Não tenho soluções. Mesmo que as tivesse, sei que existe gente muito mais abalizada para as encontrar. Apenas sei que avaliar professores pelos pais, os mesmos pais que cada vez mais utilizam a escola como depósito dos filhos, é um dos princípios do fim da escola que ensina alunos e forma cidadãos.
Carlos Malmoro

Avaliação de professores I

«(…)eu tenho adoração pelas crianças. O meu grande sonho desde sempre é ter uma espécie de herdade com um espaço enorme onde pudesse recolher todas as crianças de rua, maltratadas, desprezadas por este ciclo vicioso e por estes adultos que já foram crianças e que, infelizmente, esqueceram o que é ter sonhos e a alma carregada de esperança. Nesse sítio, daria às crianças tudo o que necessitavam: médicos, assistentes sociais, psiquiatras, psicólogos, pedagogos, educadores e eu para lhes dar tudo de mim. Porque sei que até o puto mais rebelde, mais "selvagem" se for bem orientado, no futuro tornar-se-á um exemplo de homem e que contribuirá para o bem da sociedade.(...)


Haverá algo mais mágico do que acordar, abrir a janela para a vida e saber que tudo o que fazemos é o mais correcto, o mais acertado e sem exigir nada em troca? Não há, mesmo quando me dizem que sonho muito ou que sozinha não posso mudar o mundo. Mas sei que se tivesse muito dinheiro ou alguém que depositasse total confiança em mim, que uma diferença começava a partir do momento em que tivesse nos braços uma criança de rua e todas as condições necessárias.


Lembro-me de aos 18 anos, já em P., numa aula, um professor perguntar o que queríamos da vida. Enquanto muitos ou quase todos diziam que queriam casas, carros, marido ou mulher, etc, a tonta da F. disse o que acabei de escrever e de o professor ficar de boca aberta a olhar para mim. É claro que também fui alvo de chacota por parte de alguns colegas:"Estás armada em Madre Teresa? Preocupa-te mas é contigo." Mas não consigo.


Em miúda a minha mãe ia aos arames comigo quando aparecia em casa à hora do almoço com colegas sem avisar, por saber que não tinham quase nada para comer, fora as vezes que gastava dinheiro para lhes dar coisas. Sempre fui assim e também não quero mudar. Daí estar na profissão indicada, por estar em contacto diário com todo o tipo de crianças. E enquanto não puder ter o que mais quero, dedico-me a quem tenho à minha frente.

Antes de ser professora, sou pessoa e não me envergonho de ter feito o que já fiz, de ter levado pequenos-almoços a alunos, de os ter aos fins-de-semana em minha casa, de deixar de dar aulas para os ouvir, de rir e chorar com eles e de saber que deposito muita esperança nos adultos de alguns irão ser. Tenho perfeita noção que ao ter estas atitudes, estou a ir contra as grandes pedagogias educacionais mas não me vejo apenas como alguém que despeja a matéria aos alunos, mesmo sendo olhada de lado por colegas. Mas sinto-me tão preenchida que tudo o que possam dizer, é-me indiferente.
»

Isto é um excerto de um mail que me foi enviado pela minha amiga F., professora em Coimbra e Leiria. Ela vai começar a ser avaliada pelos pais dos alunos. Os mesmos pais que permitem que as crianças tenham necessidades básicas, que não a conseguem dialogar com os filhos, (senão a F. não necessitaria de os escutar e de rir e de chorar com eles.) Que avaliação é que F. irá ter por parte destes pais que não olham com um mínimo de dignidade, nem dão a mais elementar atenção aos seus próprios filhos?

Carlos Malmoro

PS: Orgulho-me de ser amigo e da pessoa que F. é. E só desejo que os meus filhos sejam educados por professores como a F.

31 maio 2006

O meu relógio

Há um anúncio da Seiko que afirma o seguinte: «Não é o vestuário, nem o carro, nem o telemóvel que diz mais sobre um homem – é o seu relógio.» Então, se quiserem ficar a saber mais sobre mim, aqui fica o bicho:



Calculo que, por estas horas, já me conheçam melhor do que eu próprio...

Carlos Malmoro

PS: E isto é para não me alongar muito a dissertar sobre a futilidade que representa tentar perceber o ser pelo que se tem vestido ou pelo que se tem para conduzir... Sai um cérebro para aquela mesa de criativos, sff.

Os sublinhados dos livros terminados (i)

«Gebo: A felicidade na vida é não acontecer nada
Sofia: É o hábito?
Gebo: Talvez seja o hábito. É a gente fazer sempre o mesmo trabalho e dizer sempre as mesmas palavras.
Sofia: Como a chuva. E não cismar.»


«João: Antes morrer que viver sepultado.»

«Gebo: O dinheiro nunca se perdoa.»

«Sofia – Temos vivido aqui tantos anos e nenhum de nós se conhece. Durante o tempo todo que passou, houver um ser interior que se criou e que nenhum de nós suspeitava. Um ser que me mete medo e atrai.»


Raul Brandão – O Gebo e a Sombra – Teatro

Carlos Malmoro

Ode

Herberto Helder / Helder Herberto / Herder Bertohel / Berder Hertohel / Toder Herberel / Herhel Bertoder / Berhel Hertoder / Tohel Herberder / Helherber Toder / Derherber Tohel / Derberto Herhel / Derberhel Herto / Helder Herberto / Herberto Helder.

Carlos Malmoro

30 maio 2006

Personalidade Mínima Garantida

Uma mulher serena, mas com um brilhozinho de loucura nos olhos ou uma completamente louca, mas com um travo de serenidade no olhar.

Carlos Malmoro

29 maio 2006

O mais conceituado analista financeiro

O meu primo de sete anos diz que os «Morangos» estão uma seca e que agora o que está a dar é a «Floribela». Vou seguir as recomendações deste analista exímio e vender as acções da MediaCapital para comprar Impresa.

Carlos Malmoro

PS: Só por curiosidade, fui ver o fecho da Bolsa de Lisboa: a Impresa subiu quatro por cento. O miúdo faz-se.

28 maio 2006

Caro visitante

iraniano:

Muito me apraz que este humilde estaminé seja objecto da sua visita por dois minutos e picos. Quero garantir-lhe que será sempre bem-vindo por estas bandas. No entanto, se percebeu as coisas que estão por aqui escritas, coisa que nem eu muito bem compreendo, já sabe que sou um porco infiel, i.e., em linguagem ocidental, ateu.

(clique para aumentar)

Porém, e antes que me lance uma qualquer fatwa, posso adiantar-lhe que sei de muito boas fontes - Sitemeter - que o sr. veio aqui parar vindo directamente do blogue «e deus criou a mulher», que expõe o corpo feminino na razão inversa do que é permitido aí nas ruas de Teerão e na sua religião. Portanto, e não querendo que tome isto como uma ameaça, veja com quem se mete e as fatwa's que lança.

Eternamente grato pela sua visita,

Carlos Malmoro

A história repete-se

O sangue que recomeça a aparecer em sítios que não devia, as dores que voltam, as manchas já conhecidas, as possibilidades de nova operação a aumentarem e a merda da quimio de novo no horizonte. Só me pergunto: onde irá ele buscar forças para passar por tudo novamente? E onde terei eu as forças para o apoiar incondicionalmente?
Carlos

27 maio 2006

Perspectivas XXXVIII



Quando leio Pessoa, torno-me num seu heterónimo.
Carlos Malmoro

26 maio 2006

Herman no

topo da sua carreira:


Sad but true.

Carlos Malmoro

Perspectivas XXXVII

Tanto aprecio as beatas da Igreja como as beatas da Razão.

Carlos Malmoro

Perspectivas XXXVI

As duas condições para hoje ser famoso: um palminho de cara e uma acefalia.

Carlos Malmoro

24 maio 2006

Já me vai faltando

...a paciência para as pessoas que solenemente afirmam que «o que eu tenho a dizer, digo na cara», para as que orgulhosamente declaram que «eu digo o que penso» ou para as que certificam que são muito directas.

Normalmente, estas expressões vêm antecedidas de um juízo que já revela tudo o que há para explicar. Exemplo: «Carlos, isso é um absurdo.» Ok. Já entendi a ideia. Agora, por favor, expliquem lá muito bem explicadinho qual é a necessidade de acrescentar: «Tu sabes que o que tenho a dizer, digo na cara».

Por outro lado, essa frontalidade só costuma funcionar num sentido. Assim, se for um juízo negativo, lá vem procedido pelo habitual «eu digo o que penso». Mas se me disserem «Carlos, foste brilhante», nunca aparece o lamiré do «Já sabes, mesmo que magoe, eu sou frontal.» Para além disso, tenho para mim que uma pessoa que passa a vida a afiançar um aspecto do seu carácter demonstra uma de duas coisas: ou falta desse traço do carácter, pura e simples, ou então uma grande insegurança em relação à sua personalidade. E também isso contribui para a falta de paciência que ando a ter com essa gente.

Para finalizar, gostava apenas que não me interpretassem mal: não aprecio a hipocrisia, nem tenho uma indelével admiração por pessoas apócrifas. Mas também não tenho muita paciência para os histerismos da frontalidade. Tanto mais que a vida já me ensinou que essa frontalidade é fértil em revelar-se como a mais hipócrita.

Carlos Malmoro

23 maio 2006

Bem me parecia

aqui que eu não estava bem aqui.

You Belong in Dublin

Friendly and down to earth, you want to enjoy Europe without snobbery or pretensions.
You're the perfect person to go wild on a pub crawl... or enjoy a quiet bike ride through the old part of town.
Carlos Malmoro

Santa Hipocrisia

«Homossexuais continuam sem poder dar sangue»

Mas quem vai todos os dias às meninas pode.

Carlos Malmoro

22 maio 2006

Perspectivas XXXV

(autobiografia)

Existem dois tipos de pessoas: as que têm tempo para tudo e as que não têm tempo para nada. Ele pertencia aos que tinham sempre tempo para tudo. Mas chegava sempre atrasado.

Carlos Malmoro

21 maio 2006

When a man lies he murders
Some part of the world

These are the pale deaths which
Men miscall their lives
All this i cannot bear
To witness any longer
Cannot the kingdom of salvation
Take me home

Cliff Burton - To Live is To Die

Carlos Malmoro

"Príncipes do Nada"

O Inimigo Público é o suplemento humorístico do Público que inventa factos, distorce factos e dá opiniões completamente disparatadas para atingir o seu objectivo. Contudo, na última sexta-feira, na rubrica Telefobia, Renato Carreira, faz comentário a um novo programa da RTP «Príncipes do Nada», que estaria melhor numa página direita de um jornal de referência do que num rodapé de uma publicação humorística.

Comentário à foto da esquerda:
«Diz o povo que uma desgraça nunca vem só. E tem razão. A este homem não bastava o estigma de viver num dos países mais pobres do mundo em condições de miséria indescritível. Para além disto, também é serropositivo e vive num isolamento resultante da ignorância e do preconceito. Para coroar a série de desgraças em beleza, calhou-lhe em sorte (ou azar) ter de conviver pessoalmente com Catarina Furtado. A maior ironia disto tudo está no facto de nem sequer ter televisão»
Comentário à foto da direita:
«Séculos de exploração colonial não chegaram. Portugal precisava de aumentar a desgraça alheia. E quem melhor para isso do que a RTP com experiência acumulada de muitos anos a arreliar cidadãos incautos? A iniciativa tem como título "Príncipes do Nada". Príncipes serão todos aqueles que conseguem ir vivendo naquelas ocasiões. O Nada dirá respeito a quem deixa por umas horas o conforto do hotel de 5 estrelas para lhes espetar um microfone na cara e satisfazer uma sede doentia de protagonismo.»
O lema do Inimigo Público é «Se não aconteceu, podia ter acontecido». Parafraseando, este programa é mais um que aconteceu, mas que não devia ter acontecido.
Carlos Malmoro

E você,

caro utente deste serviço, também já não está pelos cabelos com códigos secretos, codex’s, instituições ocultas, grandes cabalas universais, ocultismos de variada estirpe, irmandades secretas, amostras de como a crucificação é violenta, provas irrefutáveis de que o outro lado existe, bruxas, feitiços e parapsicologia de pacotilha, e revelações iluminadas do lado sombrio da existência universal que agora servem de tema a tudo o que é filme, livro, composição musical? É que eu, como se vê pelo texto atrás escrito, ainda não estou. Rien de rien.

Carlos Malmoro

Peço a vossa paciência

Como podem confirmar nos comentários a post's anteriores a 15 de Maio, este blog foi alvo de um ataque de spam. A partir de agora, para se comentar ou dizer qualquer coisita, será necessário preencher a caixa de verificação de letras. Peço-vos a vossa compreensão para o facto.
Se bem que um comentário a dizer «Nice colors. Keep up the good work. thnx!», num post escrito a preto sobre fundo branco tem sempre a sua piada. E que um outro a afirmar que «Hmm I love the idea behind this website, very unique.», mesmo tendo sido produzido por uma máquina, me deixa completamente orgulhoso do estaminé que mantenho. Principalmente na parte do very unique.
Carlos Malmoro

Da saudade

Toda a gente que não é saudosista, nas quais me incluo, tem de ter uma boa dose de saudade. Assim, tenho saudades do sr. Manuel fazer a conta dos meus chocolates com o lápis que tinha atrás da orelha. Tenho saudades da minha mãe chamar por mim para o lanche – primeiro, por Carlos, depois por Carlos Manuel, finalmente, já em desespero de causa, pelo nome completo. Tenho saudades de defender um penalti marcado pelo matulão da escola. Tenho saudades de comer o meu «Dedo» da Olá. Tenho saudades de ver os desenhos animados enquanto lanchava. Tenho saudades de fazer o TPC na hora de iniciar a aula.

Tenho saudades de, contrariando a minha natureza tímida, levantar-me em frente da turma toda e perguntar à senhora professora porque é que a Sandra, minha colega de carteira e de coração, não passava para a terceira classe como eu. E, perante a resposta de que ela não estaria preparada para o fazer, ter oferecido os meus préstimos para a ajudar a ensiná-la melhor. Recebi um sorriso como resposta.

Tenho saudades do meu saco de berlindes. Tenho saudades de jogar ao «Mata». Tenho saudades de responder à minha mãe que as boas notas que tirava podiam muito bem aparecer sem estudar. Tenho saudades de construir um carrinho de rolamentos para depois o desfazer – a ele e a mim – na primeira descida. Tenho saudades de ir de mão dada com a minha mãe para a escola. Tenho saudades de não ter completado as minhas colecções de cromos dos recordes do Guiness (faltava o homem com as unhas mais compridas) e das estrelas de música (faltava a Olivia Newton-John).

Tenho saudades de me declarar com um bilhetinho a dizer «Gosto de ti. E tu, gostas de mim? Sim_ Não_». Tenho saudades de ter três meses de férias. Tenho saudades de Magoito, Praia Grande, Ericeira, Praia das Maças, Azenhas, de Sintra. Tenho saudades da minha bicla de ciclista com 10 mudanças. Tenho saudades de tomar banho à meia-noite completamente nu na praia de Magoito com o resto da pandilha. Tenho saudades do bolo de bolacha da minha mãe. Tenho saudades das minhas turmas da primária. Tenho saudades de aprender pelas emissões da tele-escola. Tenho saudades de nadar no rio. Tenho saudades de ir aos caracóis. Tenho saudades de não ter computador. Tenho saudades de ler «Os cinco» e de perguntar à minha mãe como é que se podia comer tanto num só lanche.

Tenho saudades de subir a uma árvore. Tenho saudades de ir à chinchada. Tenho saudades do Pão-por-Deus. Tenho saudades de ir com a minha mãe, pelo Natal, ao circo no Coliseu. Tenho saudades do Austin do meu pai. Tenho saudades de ouvir os discos da Comandita «Hey Vicky Hey / Levanta bem a vela» e de cantarolar: «D'artacão D'artacão / e os três moscãoteiros longe vão chegar», e de tentar construir uma casa numa árvore como o Tom Sawyer. Tenho saudades dos desfechos alternativos que a minha mãe arranjava para as histórias clássicas infantis.

Tenho saudades de ir com uma namorada fumar para a cave da casa. Tenho saudades de receber postais ilustrados de todo o mundo (fazia colecção). Tenho saudades de andar à pêra, tenho saudades dos «Rambo's», da «Força Delta» e d' «Os Deuses Devem Estar Loucos». Tenho saudades de ver a série Verão Azul e de assobiar a canção do genérico. Tenho saudades de não pensar nas respostas que dava nem nas perguntas que fazia.

Tenho saudades disto tudo. Saudades que não saudades. São antes pequenas memórias. Saudades, muitas e dolorosas, são as que tenho de uma senhora que, se hoje fosse viva, completaria sessenta anos. Como viveste, vives e viverás sempre em mim, aqui ficam os meus parabéns, madrecita.

Carlos Malmoro

20 maio 2006

Os três melhores

... conselheiros que o dinheiro pode comprar:

Desde sempre a trabalharem para mim.
Mesmo quando ainda não os conhecia.

Carlos Malmoro

Van Gogh - Trees and Undergrowth

19 maio 2006

Bem-vindos sejam

As últimas entradas aqui no estaminé como resultado de buscas, tiveram as seguintes palavras-chave:
- quando última palavra do verso rima com uma palavra no interior do verso seguinte, a rima denomina-se porque??;

- caixa de chocolate personalizadas dia dos namorados;

- biografia de pele o rei do futebol;

- qualidades do iogurte;

- O diálogo inter religioso+impossível?;

- a moderna caixa de pandora;

- sintav+sindicato;

- Guiné - Bissau / significado das cores de sua bandeira;

- Sindroma de asperger;

- gravidez precoce desenhos cómicos;

- registos do senhor santo Cristo;

- Medo e imaginário infantil;
e, por último, (a minha preferida)

- alfaquiques vende.
A todos dou as boas vindas. Aos programadores dos motores de busca gostaria, no entanto, de deixar no ar a seguinte questão: este blogue é o centro da net para onde tudo é atraído ou é a lixeira para onde tudo é atirado?
Carlos Malmoro

18 maio 2006

Não li

o Código da Vinci, não vou ver o Código da Vinci e não quero mais ouvir falar em Código da Vinci. Eu sei que é pedir muito, mas, por uma vez na vida, façam-me lá esse jeito. Eu até peço por favor.
Carlos Malmoro

Na mouche.
Carlos Malmoro

Tivemos de trabalhar

...137 dias para pagar os impostos e a segurança social. Agora só já falta pagar a escola dos miúdos, a renda/crédito da casa, o gasóil, os seguros, a paparoca, o vestuário, a electricidade, a água, o gás, o telefone…E no país com o mais baixo rendimento per capita da Europa dos 15, ainda há quem se admire com o nosso nível de endividamento. Admiram-se com muito pouco.
Carlos Malmoro

17 maio 2006

Perspectivas XXXIV

Ele estava certo que só havia incerteza.

Carlos Malmoro

Do falhanço

Com um obrigado à T. por me ter alertado para o facto, sugiro-lhes um pequeno exercício. Vão ao Google, façam uma busca com a palavra 'failure', e, em vez da tradicional pesquisa, cliquem em «Sinto-me com sorte». O resultado foi a busca mais certeira que alguma vez fiz.

Carlos Malmoro

16 maio 2006

Adições

Porque um tipo que tem Cannibal Corpse ao lado de Camané, é sempre um tipo com excelente gosto; porque um ivan é sempre terrível, mas existe sempre uma vizinha do lote 5, 1º Dto para nos acudir; porque um anarca constipado consegue ser sempre mais eloquente do que um qualquer abrupto; porque waving words é um belo poiso; porque é preciso coragem para se fazer um blog «em memória de...» e porque todos eles estão impregnados da natureza do mal, i.e., da natureza humana; por tudo isto decidi acrescentá-los à lista de blogues aqui do estaminé. E, claro, e pela maior razão de todas: porque quis.
Carlos Malmoro

15 maio 2006

A/C DECO (II)

Crida DECO:

...e fica desde já aqui prometido que, se tu aplicares uma coima de 45 mil euros à AXE por publicidade enganosa, eu terei todo o gosto em fazer a respectiva volta ao mundo envergando uma t-shirt a fazer-te publicidade. Não enganosa, claro está.
Sempre teu,

Carlitos

A/C DECO

Crida DECO:
Serve o presente para te informar que fui vítima de publicidade enganosa. Depois de 220 duches e 8 latas de deo AXE, simultaneamente conjugados, o resultado obtido não foi, nem de perto nem de longe, o anunciado no verso da embalagem de spray. A saber:

Como tal, estou ao teu dispôr e do Dr. Ricardo Sá Fernandes para que, juntos, possamos encetar uma louca cruzada judicial contra esta manifestação bárbara de capitalismo selvagem.
Atenciosamente,
Carlitos

14 maio 2006

Perspectivas XXXIII

- Tu tens de mudar.
Três semanas depois, disse-lhe:
- Estás diferente. Que te aconteceu?

Carlos Malmoro

Rain, Steam and Speed - Turner

Perdido

Já procurei debaixo das almofadas do sofá, já telefonei para o trabalho a saber se ele não teria lá ficado por esquecimento, já remexi a gaveta dos boxeurs, já tirei os tapetes do carro, já vasculhei o caixote do lixo, não fosse parar lá por engano, já revistei os bolsos da calças, já averiguei no tambor da máquina, já farejei o frigorífico e já esquadrinhei todo o corredor. E continuo sem me lembrar onde foi que me esqueci do sentido da vida.
Carlos Malmoro

13 maio 2006

Perspectivas XXXII

A todos concedo o direito à estupidez. Desde que não abusem do privilégio.
De todos espero receber o mesmo direito. Podem ficar descansados: eu não abuso.

Carlos Malmoro

12 maio 2006

Cronenberg

desceu ao quotidiano para fazer um excelente filme e contar uma grande história.


Carlos Malmoro

Profundidade

As mulheres são capazes de identificar o melhor parceiro para constituir família através de um simples olhar para o rosto de um homem.

Grande coisa: nós nem precisamos de olhar para rosto delas.

Carlos Malmoro

11 maio 2006

Perspectivas XXXI

Personagem 1) - Eu tenho muitos amigos
Personagem 2) - Eu tenho uma fila de inimigos.
Personagem 1) - Porque sou um bom carácter.
Personagem 2) - Porque sou um mau carácter.
Narrador: Afirmar que se tem carácter, bom ou mau, só revela falta de carácter.
Carlos Malmoro

Antropologicamente

falando, que significado podemos atribuir à circunstância de um dos melhores filmes dos últimos tempos abrir com um grande plano de um rabo?

Carlos Malmoro

10 maio 2006

Melhor que sair o totoloto...

Comercializar um Livro de Reclamações para as relações.

Carlos Malmoro

Perspectivas XXX

- Sou importante para ti?
- Sim, como uma inesquecível canção. Mas sem letra.
- Um instrumental?...
- Exacto, como um instrumental: dá para seres assobiado, não dá para seres cantado.

Carlos Malmoro

Perspectivas XXIX

Dizia ele:
«Eu sou aquilo que não sou.»

Carlos Malmoro

09 maio 2006

Perspectivas XXVIII

(momento Paulo Coelho)
O amor ancora a alma à deriva e liberta a alma ancorada. Simultaneamente.
Carlos Malmoro

07 maio 2006

Dia da mãe

Madrecita, não te ofereci nenhum cartão a dizer «Para a melhor mãe do mundo», nem um poster a dizer (como vi numa papelaria) «Para a mãe mais fixe do mundo». «Melhor» e «mais» são termos comparativos. E tu és única. Dei-te a tradicional rosa branca. Coloquei-a em cima do teu caixão. Espero que gostes.
Carlos Malmoro

Wreck of a Transport Ship, Turner, Museu da Fund. Calouste Gulbenkian

Perspectivas XXVII

Uma das melhores coisas de ser velho não é ser indiferente ao que os outros pensam das nossas opiniões. É não sentir a necessidade de afirmar as nossas opiniões.
(Dica do vovô Moreira)

Carlos Malmoro

Como perder a paciência

Supermercado habitual, secção de laticínios, 18 e 48, do dia 07 de Maio de 2006. Olho para a montra de iogurtes e entro em pânico: trocaram os lugares todos. E para me deixarem mais confuso (sim, que aquilo foi feito propositadamente para me torturar o tédio de domingo à tarde), colocaram os iogurtes divididos por tipo. E há de todo o tipo. A saber: pois temos os de pedaços, os dietéticos, a perdição dos bífidos e a tentação dos naturais, os pronto-a- beber líquidos, os queijinhos, os de crescimento e, para finalizar, as sobremesas. Mas onde é que param os iogurtes normais? Sim, aqueles que toda a gente come - com aroma. Ora vem aí uma assistente. Vamos inquiri-la:

- Boa tarde. Pode indicar-me onde estão os iogurtes de aroma?

- Boa tarde. O mostrador de iogurtes está dividido por secções para que se torne mais fácil encontrar o produto pretendido.

Depois de ouvir esta resposta decorada na formação, - sim, que ninguém que eu conheça me dá uma resposta destas -, inquiro de novo:

- Sim, já reparei. Mas não existe nenhum separador para os iogurtes de aroma. Estão juntos com que os de que tipo?

- Nós aqui pretendemos organizar as diversas qualidades de iogurte por tipos, para que seja mais fácil e cómodo ao cliente escolher o que quer. De certeza que o senhor não os encontrará misturados com outros.

Pois...«mais fácil e cómodo»...Outra resposta decorada... Começo a perder a paciência.

- Desculpe, mas eu não vejo nenhum separador para «Aromas». Pode indicar-me onde estão?

Ela olha...

- Sim, não tem o separador de aroma, mas de certeza que os encontrará no refrigerador.

- Misturados com que tipo?

- Tenho a certeza que não estão misturados. Estão numa secção autónoma. Boa tarde e boas compras.

Olha, despachou-me...

- ...ah...boa tarde.

Lá encontrei os de aroma. Misturados com as sobremesas.

Pensando melhor, e trocado por miúdos, o que a tipa realmente me disse foi:

- Procure melhor. Nós aqui não nos enganamos. E eu tenho mais que fazer.

E existe lá coisinha mais irritante do que ser mal educada educadamente?

Vaca.

Carlos Malmoro

06 maio 2006

Um bocadinho de naftalina para estes senhores, sff

A propósito do último texto aqui escrito, um tal de máquina zero, disse o seguinte: «O problema é se um dia não te deixam lá entrar..». Pois, a asneirola do costume.
No entanto, este comentário revela muito acerca da mentalidade da pessoa que o escreveu. E também revela muito da mentalidade de alguns portugueses. Uma mentalidade fechada, que não tem o mínimo gosto em conhecer coisas novas, de ver novas perspectivas, que tem receio a tudo o que é diferente. Uma mentalidade bafienta, que argumenta que Portugal é para os portugueses e que proclama o orgulhosamente sós.
Enfim, uma mentalidade de mono. Mas uma mentalidade que se esquece que muito do que é hoje Portugal tem as suas mais profundas e fortes raízes no espírito de dar novos mundos ao Mundo, na coragem da diáspora e na facilidade de adaptação a novas situações. E mais importante, que o País só engrandeceu quando se abriu ao exterior.

Portugal esteve assim meio século. Fechado, em morte cerebral, na penumbra. Como sou uma alma caridosa e solidária, a estas pessoas, que parecem tanto simpatizar com os 'gloriosos' tempos da velha senhora, só gostaria de lhes oferecer uma máquina do tempo, programada para retroceder cinquenta anos, sem possibilidade de voltar ao tempo em que vivemos. De certeza que seriam muito mais felizes no tempo da Fátima, Fado e Futebol. E eu não tinha de aturar tantos disparates.

Carlos Malmoro

04 maio 2006

Vila de Rei

>

Chegam esta quinta-feira a Vila de Rei as primeiras quatro famílias brasileiras das 60 que a presidente da Câmara quer levar para o concelho.

Já há por aí muito alarido em relação a esta notícia. Que não senhor, que não pode ser. Que isto é desvirtuar o coração de Portugal. Que a alma daquela região vai ficar irremediavelmente perdida, enfim, o coro de protestos useiro e costumeiro do politicamente correcto.

Porém, a verdade é esta: uma pessoa afasta-se 80kms da costa e vê um país completamente ao abandono. É tudo muito bonito, as nossas vilas, com as suas remotas tradições, os rebanhos de cabras, os trajes, os cantares, as paisagens de perder de vista, etc, etc,. Mas depois, fecham-se maternidades por falta de casais jovens; os polos universitários e politécnicos idem, fazendo com que os estudantes e os quadros médios e superiores se desloquem para o litoral; as empresas fecham ou deslocalizam por falta de acessos e por falta de um clima empresarial onde possam estabelecer negócios de proximidade, enfim, cria-se um deserto autêntico a nível socio-económico que não permite a ninguém sonhar com um futuro para si e para os seus. Finalmente, o Poder Central nunca olha condignamente - e este condignamente significa exactamente com dignidade, e não com condescendência - para os problemas e necessidades destas pessoas.

E agora está tudo muito chocado porque uma senhora autarca, que, diga-se sem cerimónias, tem-os no sítio, apercebeu-se que o seu concelho, daqui a uma ou duas décadas, não estaria mais no mapa, e mandou chamar pessoas que quisessem fazer a sua vida e a vida de Vila de Rei. Se a senhora procedeu bem ou mal, existe uma coisa em Portugal que se chama democracia e que serve exactamente para julgar isso. Mas será sempre a população de Vila do Rei, e não a de Lisboa ou a do Porto, a fazer esse julgamento.

Para finalizar, a minha opinião: prefiro uma Vila de Rei com sotaque a uma Vila de Rei deserta.

Carlos Malmoro

A post to say goodbye

Há sete anos, saí de Lisboa para Ponte Lima. Está na altura de sair de novo. Para onde? Carlos Malmoro

03 maio 2006

Uma vez na vida

Logo, quando forem 01 hora, 02 minutos, 03 segundos, do dia 04, do mês 05, do ano 06, durante um segundo, vai acontecer uma coisa única na vida que já vivi e que ainda vou viver. Os relógios ficarão assim alinhados: 01:02:03 04/05/06. O que por vezes nos esquecemos é que a todo o instante acontecem nas nossas vidas momentos irrepetíveis, e quase sempre mais importantes do que esse segundo. A única diferença é que não estão alinhados aritmeticamente. E isso, não o devendo, faz toda a diferença.
Carlos Malmoro

De passagem

Ao sair do carro, um casal conhecido, na casa dos quarenta, vem na minha direcção.
O homem diz constantemente, num tom exaltado, para a mulher
Ele - Eu dou-lhe uma cabeçada que o mato.
Ela - ....
Ele - A sério, eu juro-te que lhe espeto uma cabeçada naqueles cornos que ele vai desta para melhor.
Ela -....
Ao cruzarem-se comigo, o homem, agora num registo simpático, como se nada fosse, diz:
Ele - Boa noite, senhor Carlos.
Ela - Boa noite, senhor Carlos.
Eu - Boas noites.
Depois de passar por mim, a voz simpática regressa à agressividade, e volta a dizer para a mulher:
Ele - Eu já te disse: não me custa nada mandá-lo desta para melhor com uma cabeçada.
Ela -.....
E foi nisto, com ligeiras variações, mas com a cabeçada e a ameaça de morte sempre presentes, até a voz se perder completamente nas minhas costas.
Dúvida: bebedeira ou obsessão? Ou ambas?...

Carlos Malmoro

Ponto da situação

Um erro de deus. Um desperdício da natureza.

Carlos Malmoro

02 maio 2006

Perspectivas XXVI

(silogismo insidioso)

O conhecimento dá-nos poder. O poder corrompe. Conhecemos para ser corruptos?

Carlos Malmoro

01 maio 2006

Literatura de viagem

Do Encontro Internacional de Literatura de Viagem, realizado em Matosinhos, retive duas ideias. Uma de Álvaro Siza Vieira: «uma viagem bem organizada vale mais do que um período inteiro de aulas», uma formulação que o arquitecto sempre utilizou enquanto professor. Outra, de Francisco José Viegas, a criticar «os que conhecem a República Checa mas nunca foram a Fânzeres».
Gosto destes encontros literários onde se fala para o leitor comum, sem grandes teorizações literárias nem polémicas de capelinhas. Apenas o gosto de falar de livros, por gente que, fazendo da sua vida a escrita, sabe que a leitura é a melhor forma de escrever.
Carlos Malmoro

Perspectivas XXV

A minha melhor qualidade é ter consciência dos meus defeitos.

Carlos Malmoro