06 abril 2007

[cantigo anterior]

nasce-se de dentro para fora
para mais dentro cresce-se
e de fora para dentro morre-se

é assim que esta serra é continuamente morta
dando o seu sangue transparente
os pulmões de Deus e as sílabas do silêncio

é assim também que o mistério cresce
internando-se no coração do tempo

e é assim que eu me vou nascendo
batendo com os dedos pequenas interrogações
à porta do grande silêncio das palavras
intáctil genesiacamente mudo

no tempo em que eu fui um dedo de Deus
(aquele que Miguel Ângelo pintou)
eu vi Ele próprio criar-se
usou muito silêncio e mistério
o que sobrou colocou nesta serra

Pedro Sena Lino, [o ilimite do verde], incluso na colectânea Malcata 7 Geografias, Alma Azul

Os Idos de Abril

Acabado o almoço expresso, vagueei pelas notícias do Público de três de Abril próximo passado. Não obstante ser minha expressa vontade adquirir o jornal do dia em que publico este arrazoado, e resultante de uma deferência não rara, o ardina fez o obséquio de me regalar com uma antiguidade. Um fragmento de história pelo custo do folhetim do dia – um achado.

A página primeira do pretérito periódico, anunciava que doutos cientistas tinham publicado um estudo mais sobre uma tal Ota, que o hemiciclo tinha antecipado votações por premunir falta de assiduidade dos laicos procuradores da plebe na religiosa quadra pascal e, a toda a altura da página, era publicada uma singular peça sobre um desporto muito em voga nesses imemoriais tempos: o futebol. Três assuntos que nos remetem directamente para a etimologia da palavra «notícia»: novidade.

Firmada a leitura das parangonas dos idos de Abril, embrenhei-me no interior do periódico para descobrir outras estimulantes matérias passíveis de enobrecer a minha erudição. Contudo, e antes de proceder a esta insigne tarefa, deparei-me com a necessidade de apartar uma miríade opúsculos secundários. Consumado este imprescindível mister, não mais que uma vintena de páginas remanesceram. Estas, segundo a terminologia do meio, designam-se por «Caderno Principal».

Munido de uma ávida querença de saber, passeei então o meu analítico olhar por dezenas de artigos do jornal. As novas estavam soberanamente acondicionadas em estanques secções, coadjuvadas por ilustrações que colaboravam para um melhor entendimento das matérias.

Na impossibilidade de me pronunciar sobre a totalidade das notícias, trago-vos à colação uma única. Abordava-se a sempre pertinente e deveras empolgante questão dos eleitores fantasma. Um estudo (os «estudos» eram muito apreciados nos idos de Abril) revelava que existiam cerca de oitocentos mil eleitores fantasma. E que esse número poderia deturpar os resultados alcançados nos actos eleitorais do sistema representativo da democracia parlamentar portuguesa. Confrontado com este, o director geral do STAPE, o superior responsável pela manutenção e actualização dos supracitados cadernos, mostrou estar à altura dos acontecimentos e respondeu racional, educada e irritadamente que «eles que o provem». Passada a educada fúria racional, alertou então para o facto de «ser altamente improvável existirem em Portugal dez mil eleitores com mais de cem anos».

Tenho para mim que, mais do que altamente improvável, é consumadamente impossível evitar uma sonora gargalhada por saber que existe uma pessoa em Portugal que julga que há uma dezena de milhar de eleitores centenários.
Carlos Malmoro

03 abril 2007

«Há Homens»

«Há homens
que deveriam ter montanhas
para lhes eternizar os nomes.

As lápides não são suficientemente altas
nem verdes,
e os filhos vão para longe
para se libertarem do punho
que a mão dos seus pais sempre há-de parecer.

Tive um amigo:
viveu e morreu em absoluto silêncio
e com dignidade,
não deixou livro, ou filho, ou amante que o chorasse.

Isto não é uma canção de lamento
mas apenas um nomear
desta montanha por onde caminho,
fragrante, obscura, e delicadamente branca
sob a palidez da névoa.

A esta montanha dou o seu nome.»

Leonard Cohen - Poemas e Canções vol I - Relógio d'Água





Leonard Cohen nasceu em Montreal, Canadá, em 1934. Em 1956 editou «Comparemos Mitologias», o seu primeiro livro [poesia]. O álbum de estreia intitulou-se «As canções de Leonard Cohen». A partir daí foi alternando a sua obra artística entre discos e livros. O reconhecimento a nível musical pode ser aferido como talvez sendo o músico que mais vezes é referido como influência dos novos artistas pop e cantautores. A nível literário, o reconhecimento veio há dois anos com o Canadá a indicá-lo como candidato nacional ao Prémio Nobel da Literatura. Conforme informa hoje o Diário Digital, este ano vai ser lançada uma campanha para repetir a candidatura.
Carlos Malmoro

Modos de Vida (X)

Levava a vida com esta máxima: «desde que não implique abdicar do essencial, se não posso vencê-los, junto-me a eles.» Passou a vida a juntar-se a eles. Quando reparou, tinha abdicado de tudo o que lhe era caro. Nesse dia, não se juntou a eles - eles é que se juntaram a ele.
Carlos Malmoro

02 abril 2007

Uma banda relativamente recente chamou-me à atenção. Para além de uma sonoridade dissemelhante da que se vai ouvindo a grosso modo nas rádios, notei também que quem escrevia as letras, fazia-o de uma forma séria. Mesmo quando não concordo com a posição que elas reflectem, não deixo de notar ali uma preocupação e um cuidado enormes, para não falar de algumas tiradas de génio, do rapazito de 24 anos que as escreve. Ele chama-se Win Buttler, é o vocalista, letrista e principal compositor dos Arcade Fire.

Na canção que serviu de apresentação ao novo álbum, existem dois versos que desde logo se destacaram: «And no matter what you say / There are some debts you'll never pay». São duas frases simples. E a simplicidade é, de entre muitas outras qualidades que um texto pode ter, e como por aqui já tive oportunidade de referir, aquela que mais tende para o génio. Lembro-me sempre de Sophia para legitimar esta minha pessoalíssima opinião.

«Digas o que disseres, existirão sempre dívidas que nunca conseguirás pagar». E é isso que eu venho hoje aqui dizer: escreva eu aquilo que escrever, existirão sempre dívidas de gratidão para quem por aqui passa. Para quem visita, para quem comenta, para quem linka, para quem perde um segundo do seu valioso tempo a ler o que escrevo, para quem faz, por vezes, elogios que me fazem ficar como uma criança corada depois da miúda mais bonita da escola lhe dar um beijo.

Isto, hoje, é para vós. Hoje é o meu dia de perder - melhor, de ganhar - tempo convosco, com os que estão aí nos links ao lado, com os meus colegas do GR, com os que estão espalhados por essas caixas de comentários, com aqueles que discordam do que eu digo de forma educada, com aqueles que apenas visitam, que dão um espreitadela…

Não conhecendo eu nenhum blogger pessoalmente, sinto-me hoje uma pessoa muito mais rica com o reconhecimento que cada um dos atrás referidos amavelmente me concede. Não só com o reconhecimento que me dão, mas também com a atenção, o humor, os ensinamentos que me proporcionam. E essas características, para mim, já são muito mais do domínio da amizade real do que de simpatia virtual. Numa palavra só, aquilo que me dão, considero-o uma riqueza. Uma riqueza que gera uma dívida. Uma dívida que nada do que eu possa dizer ou escrever pode pagar.
O meu muito, muito obrigado e bem-hajam.
Carlos Malmoro

01 abril 2007

Não sei...

a que propósito me lembrei da expressão «fazer-te a barba à estalada».



Carlos Malmoro

31 março 2007

Da Música

É dos livros: a música é a mais universal das artes. Universal porque é susceptível de ser percepcionada por todos, porque basta saber assobiar para criá-la, porque consegue expressar todos os matizes do espírito humano, porque não conhece fronteiras, línguas ou religiões. A música é, igualmente, individual. Uma mesma música é interpretada de maneira diferente de indivíduo para indivíduo, e cada um desses indivíduos pode dar diferentes exegeses à mesma música, normalmente por variações do tempo, do espaço e do estado de espírito, conduzindo a que aconteça um movimento curioso: uma canção é universal, por aquilo que atrás se aduziu. Quando é apropriada por uma pessoa, torna-se individual. Já «dentro» dessa pessoa, ela volta a tornar-se universal na medida em que pode tomar uma pluralidade de interpretações, não pela subjectividade óbvia de cada indivíduo, mas porque para um mesmo indivíduo, a mesmíssima música pode despertar uma miríade de emoções, no limite contrárias, devido às circunstâncias em que é escutada: a arte é a mais universal das músicas.

A música está para mim como as «madalenas» estavam para Marcel Proust. Cada vez que meto um disco a tocar, é uma viagem no tempo que faço. Recordo nitidamente situações, pessoas, momentos. As canções são cábulas da história da minha vida.
Ao longo da Festa Música (FM), fui falando daqueles que estão no topo da pirâmide dos meus gostos. Hoje, trago-vos aqui os que estão na base. A base da pirâmide é sempre mais larga. Como tal, tratarei de deixar apenas links, e dentro destes algumas dedicatórias a quem teve a amabilidade fazer referência à FM.
Para finalizar quero corrigir aqui uma injustiça que os dicionários de sinónimos cometem: música significa, essencialmente, amizade. E é com essa amizade que dedico este post n.º 3000 (e respectivo vídeo) do Geração Rasca ao André, à Cristina, à Nancy e à Leonor.
Pink Floyd, R E M, Radiohead, Manic Street Preachers, Oasis, Mão Morta, Andrew Bird, The White Stripes, The Killers, Interpol, Muse, Therapy?, Suede, Tchaikovsky, Within Temptation, Sisters of Mercy, Dead Can Dance, Dave Matthews, Patrick Wolf, The Animals, Placebo, The Who, Megadeth, David Bowie, e muitos muitos outros, entre os quais estes senhores que esta noite vão actuar exclusivamente para os meus colegas do GR:


29 março 2007

Escolas 2.0

Mãe: Filho, porque estás triste?
Filho: Na escola, mãe, ninguém me linka.

Carlos Malmoro

All we need is love

Li no Público de ontem que o PM finlandês ganhou popularidade e eleições depois de ter passado por um escândalo: a antiga companheira publicou um livro com pormenores sobre a relação que mantiveram. Enfim, um pouco como a nossa Carolininha... Ao pronunciarem-se sobre este resultado, os analistas políticos chegaram à conclusão que a melhoria da imagem do PM se deveu ao facto de os finlandeses, após a publicação do livro, terem começado a olhar o primeiro deles como uma pessoa mais humana em vez da imagem de homem cinzento que tinham.

Assim, a opinião pública ficou a saber que o PM mandava uma mensagem todas as noites à sua ex a dizer «boa noite. o chefe do executivo» e também que após um beijo lhe terá dito que os mesmo «sabia melhor que batatas assadas no forno» (a comida que o PM mais gosta).

Eu acho isto tudo muito bonito, o amor é a coisa mai linda do mundo e por vezes faz-nos dizer coisas um pouco tontinhas. Mas uma coisa eu sei: se eu enviasse uma SMS de boas-noites à minha mais-que-tudo a desejar-lhe apenas «boa noite», seguido do cargo profissional que desempenho, que por acaso também a palavra "executivo" na designação, ou se comparasse os beijos dela a batatas assadas no forno, o mínimo que me acontecia era no outro dia ter as malas à porta de casa. E, diga-se em abono da verdade, merecidamente.

Estes finlandeses são um povo realmente muito apaixonado.

Carlos Malmoro

28 março 2007

Optimismo, Prudência e Pessimismo

Como aqui muito bem se refere, é de um optimismo ingénuo realizar os concertos que visavam celebrar o 50º aniversário do Tratado de Roma ao ar livre na diluviana Bruxelas. Já os dirigentes europeus, preferiram não embandeirar em arco e fazer discursos mais prudentes quanto ao futuro da UE. Agora só não entendo as escolhas das bandas que actuaram nos referidos concertos: decretar os Scorpions e as Las Ketchup como embaixadores da música alemã e espanhola é, no mínimo, de um atroz e paralisante pessimismo.
Carlos Malmoro

27 março 2007

Porta Entreaberta

Os meus sinceros parabéns ao primeiro ano do Porta Entreaberta. Um blogue que tem um tempo e um estilo muito próprios de respirar (postar). Os meus votos de um segundo ano igualmente brilhante. E, se a autora mo permitir, o pedido de uma postagem mais assídua. Felicidades.
Carlos Malmoro

Psicoterapia

«Quanto é? 3,00€. E está aqui este folheto para ficar com o cartão da nossa loja….dá-lhe descontos, e pode pagar a crédito…» «Quanto devo? 5,00€. Já lhe falei nas vantagens do nosso cartão?...» «Quanto custa? 10,00€, e sabia que se tivesse o nosso cartão ficava-lhe em apenas 9,98€?» «Quanto? 7,00. Se tiver o nosso cartão fica em 6,95€, mas os cinco cêntimos só podem ser descontados em compras na nossa superfície se o valor das mesmas exceder 100,00€.»

É esta a vida de quem paga. Além de pagar, leva sempre com a oferta do cartão. Sinceramente, eu sei que as senhoras da caixa não devem ler este blogue, e também sei que estar a oferecer o cartão da casa a todos os clientes deve ser para as senhoras um aborrecimento que faz parte dos ossos do vosso ofício. Mas eu gostava de saber o que tenho de fazer para que não me oferecessem mais cartões. Embora digam o contrário, e volto a frisar que tenho plena consciência que faz parte das vossas obrigações, eu não iria enriquecer com esse dinheiro, nem seria ele que num futuro hipotético me livraria de ficar economicamente debilitado. Aliás, os vossos cartões que proporcionam crédito, têm uma taxa anual efectiva global (TAEG, gostaram do preciosismo?...) a TAEG dos vossos cartões, dizia eu, é tão alta que me conduziria rapidamente, não à debilidade económica, mas à mais completa miséria. (eu sei, estou a hiperbolizar, tal como vocês costumam fazer com um desconto de cinco cêntimos…)

Para finalizar, quero dizer que existe um cartão ao qual me vou render. É ao do hipermercado. Os descontos e o crédito são tão miseráveis, os primeiros, e tão alto, o segundo, como em todas as outras lojas. Mas é que eu, pura e simplesmente, já não suporto ouvir a pergunta: tem cartão? Eu passo lá todos os dias, e a paciência tem limites. Assim, depois de ter o cartão, antes de chegar a minha vez de fazer o pagamento, eu vou atirar logo com o cartão para cima das empregadas da caixa. Evitar-se-á a pergunta. E espero que não tomem este acto como agressivo. É antes em defesa, legítima, da minha sanidade mental e do vosso património: é que aos loucos dá-se sempre um desconto e é sempre bem maior que o do vosso cartão.
Carlos Malmoro

26 março 2007

E o vencedor do concurso

...«Grandes Portugueses» foi, obviamente, «O Gajo de Alfama».

Carlos Malmoro

25 março 2007

O melhor português de sempre

Eu acho que sim. Que Salazar deve ganhar. O maior português de sempre. Através da sua polícia política prendeu o meu pai durante uma tarde, só porque ele, desprevenidamente, estava a dizer ao sócio que era impossível abrir um outro negócio em Lisboa. Foi apanhado a afirmar que «a situação era má, que as pessoas viviam na miséria, que não havia dinheiro». Enfim, verdades. O génio das finanças, mas que detestava que os portugueses crescessem e economicamente, e o salvador da pátria que nos livrou da 2ª guerra mundial, para enviar o meu pai para a Índia, onde era frequente dizer-se que «bastava que os indianos mijassem no mar para morrerem todos afogados». E que aproveitou também para enviar outros tantos milhares, que vieram de lá em caixões, com mazelas físicas e psíquicas para o resto da vida. Acho que sim. Que Salazar deve ganhar. Um filho da puta, o maior português de sempre.
Carlos Malmoro
Ps: isto foi escrito enquanto decorria o programa. A quem me visita regularmente, sabe que não gosto de escrever com linguagem pesada. Neste caso, abro a excepção. As minhas desculpas a leitores/as mais sensíveis.

Um «H» pode significar antítese

Um é entretenimento em estado puro. O outro é prostração. Um é discípulo de George Michael e Freddy Mercury. O outro tem influências de blues, Waits, Cohen. O primeiro é o talento da competência, o segundo é a competência do talento. Um tem uma voz luminosa, no outro a voz brota da sombra de uma caverna. A perfomance do primeiro é exuberante, a do segundo é esfíngica. Um chama-se Mika, o outro Micah. Acho interessante o primeiro; acho excelente o segundo.



[Micah P. Hinson - Beneath the Rose]

Carlos Malmoro

24 março 2007

E que tal dois por semana?

Saem uns raios de sol à rua, e a televisão, jornais, rádios são inundados de nutricionistas. Ontem, durante o almoço, assisto ao sermão de uma: muita água, poucos fritos, muita carne branca, pouca vermelha, ou seja a cantilena do costume, e acaba a dizer esta monstruosidade: muita fruta e doces «só uma vez por semana». Comecei então a reparar na senhora: um rosto magro, demasiado magro, e uma tez pálida, esmaecida, amarela, enfim, aquilo que aqui no norte se costuma chamar «uma cara sem cor», que a maquilhagem não conseguia disfarçar. E pensei que a senhora, se me consultasse, e mesmo não sendo nutricionista, recomendar-lhe-ia que comesse um bife do tamanho de um prato, amansado por um bom vinho, na sobremesa uns profitteroles bem regados de chocolate, fazer isto umas três a quatro vezes por semana, e em coisa de quinze dias teria de novamente as faces rosadas. E só então, só nesse dia, poderíamos acreditar nos conselhos que a senhora dá. Enquanto tal não acontecer, ninguém vai «comprar» o que uma pessoa com cara de doente diz.
Carlos Malmoro

Mais um do meu segundo pintor favorito*



W. Turner, «The Grand Canal, Venice»

*dedicado à Leonor.

Carlos Malmoro

Máxima

Ter «pena» é decretar uma pena de morte sem tirar a vida.

Carlos Malmoro

21 março 2007

Lei da Compensação

Neste momento estou a ler Jean Guitton, «Últimas Palavras» [filosofia]; Fernando Rosas, «Portugal Século XX (1890-1976) - Pensamento e Acção Política» e Vasco Pulido Valente, «O Poder e o Povo - A Revolução de 1910», o primeiro com uma visão de esquerda e o segundo com uma visão de direita [história](não imaginam as diferenças que podem existir entre a mesma história contada à esquerda e à direita...). Finalmente, estou no início de «Serviço Público - Interesses Privados», António-Pedro Vasconcelos [comunicação]. Nesta relação, o que importa reter não é a qualidade ou quantidade de livros citados, mas as temáticas: todos eles são livros científicos. Mais precisamente, de Ciências Sociais, mas científicos.
Hoje, durante o almoço, alguém chegado chama-me à atenção para o facto de estar a escrever muitos post's com carácter intimista, melancólico, enfim, e passe o exagero da expressão utilizada por ele, «poético». O raciocínio foi imediato: uma vez que por estas bandas não estou a ler nem romances nem poesia, descarrego no blogue post´s com a matriz contrária ao que leio. E se o raciocínio foi imediato, a conclusão foi óbvia: muitas vezes, os blogues servem de compensação às faltas da vida.
Carlos Malmoro

20 março 2007

Closest Thing to Crazy

Há dias em que nos sentimos derrotados. Sofremos disso naqueles dias em que a vida corre depressa demais para a nossa breve passada. Apercebemo-nos que não há muito mais a fazer do que ficar sentado a olhar a voragem das rotinas a fazer o trabalho de nos tornar velhos. As palavras, como disse o poeta, estão gastas mas, nesses dias, sentimos que, para além das palavras, também os gestos, as emoções, as vontades, os sonhos estão acabados e achamo-nos sem coragem para nos levantar. Nesses dias, estamos mais distantes de nós mesmos; nesses dias, somos uma renúncia da nossa origem; nesses dias, encontramo-nos mais perto da loucura. A mudança ocorre estimulada por um acontecimento feliz, por um reencontro há muito aguardado, por um conselho amigo ou então, e muito simplesmente, a mudança dá-se quando escutamos alguém a declarar, mostrando que nos compreende, numa voz serena sobre um piano aquilo que lhe fez estar mais próximo da loucura.




[Post dedicado a quem me ofereceu este CD e me tenta mostrar, com uma inesgotável paciência, paisagens sonoras mais calmas do que eu, habitualmente, costumo escutar. Para além, obviamente, do senhor Leonardo Cohen e do Nickinhas Cave.]

Carlos Malmoro

19 março 2007

Gosto de prosas...

assim:


Sem margens para comentários. Uma pequena vénia, talvez.

Carlos Malmoro

O Hino

Numa das últimas edições do NME (New Musical Express), era apresentado da seguinte forma: quarenta anos, continua a fazer os outros milionários, morto. Falava-se da celebração do quadragésimo aniversário de Kurt Cobain. Mais do que esses artifícios, que não passam de constatações do óbvio com uma leitura moralista digna dos tablóides, importa esclarecer o seguinte: os Nirvana foram, desde há muito, a única banda que concretizou o presságio de «the next big thing» Eram uma banda, mas acima de tudo era Kurt, um exímio escritor de canções, deprimido, com uma rara capacidade musical. As canções eram escritas com uma simplicidade desarmante: três ou quatro acordes sobre uns versos repetidos até à exaustão. Uns arranjos ora despidos na crueza do acústico, ora vestidos com distorção. E nisto da arte, principalmente da arte pop/rock, simplicidade quer quase sempre dizer génio: a crítica rendeu-se, o público, idem. O que, convenhamos, é raro. O sucesso imenso da banda apanhou um Kurt demasiadamente adicto e desprevenido para lidar com ele. O resto é história. E é história, principalmente, o legado musical que nos deixou. Fiquem então com uma excelente cover de Bowie (The man who sold the world), e aquele que, sem grande margem de erro, será lembrado como o hino da "geração rasca" (não do blogue, obviamente): Smells Like Teen Spirit.




Carlos Malmoro

18 março 2007

Post Camiliano

Numa recente visita à Casa-Museu de Camilo Castelo Branco, em S. Miguel de Ceide, informou-me a guia que no exemplar de «A Relíquia» de Eça de Queiroz que existe na biblioteca da casa, lê-se como anotação final que «este livro divide-se em duas distintas partes: a primeira é entediante, a segunda é maçadora e de um completo mau gosto». Pensando depois no assunto, lembrei-me de uma boa dezena de aspectos da sociedade portuguesa a que este juízo assentaria que nem uma luva. Mesmo não concordando com ele quando aplicado à «Relíquia» queiroziana.
Carlos Malmoro

17 março 2007

Rotinas #2

Na garagem, os carros ficam apertados. Quando faço a delicada manobra de estacionamento, por instinto, desço o volume do rádio. Duas de uma: ou inconscientemente penso que por a audição ficar liberta do som consigo ver melhor, ou então estou mortinho por escutar a belíssima melodia de um carro a bater no outro.
Carlos Malmoro

15 março 2007

No Dia Internacional

da Defesa do Consumidor, telefonam-me do banco «para informarem-me» que tenho um «crédito pessoal pré-aprovado de 20.000,00€», com «taxa de juro bonificada» (13%/ano) e pagamento em 84 prestações (vá lá, não disseram «suaves prestações»). Contas feitas, iria pagar quase tanto de juros como de capital. O mais interessante disto tudo é que eu não pedi nada, não estou interessado em nenhum crédito pessoal, muito menos nestas condições. A pergunta que se coloca: não haveria uma forma do banco celebrar o Dia do Consumidor sem me demonstrar, uma vez mais, a sua patética (e ilegal) sede de vender «produtos financeiros de alta rentabilidade»? (meu deus, como odeio esta expressão...)
Não, não vou dizer qual foi o banco. Só vou levantar um pouco a ponta do véu:




Carlos Malmoro

Por favor, não leia este texto

Imaginem que este texto não existe. Imaginem que este vídeo não existe. Imaginem um espaço em branco e, mesmo que impossível, um absoluto silêncio. Imaginem, ainda, um homem de idade que já tudo disse o que sobre o amor havia para se dizer. Imaginem que este homem além de o dizer, também o cantava. Descansem a imaginação, por favor.

Voltem a imaginar esse homem que tudo sabe sobre o amor. Imaginem que o concerto da minha vida será aquele que nunca irá acontecer – o homem que tudo sabe sobre o amor já não dá espectáculos. Imaginem que esse homem escreve letras que são poesias e também escreve poemas que por vezes são letras. Imaginem que esse homem teve como crítica ao seu primeiro livro seu «Depois de o ler, tive de fazer uma lavagem cerebral». Imaginem que esse homem continuou por mais 50 anos a escrever livros e canções. Imaginem que essa Obra foi candidata ao Prémio Nobel da Literatura pelo seu país. Parem de imaginar para construírem uma imagem do que foi pedido.

Imaginem uma voz. Uma voz simples e complexa, rouca e terna, quente para o amor e implacável com o mundo. Imaginem uma voz que é capaz de nos esclarecer o significado de uma palavra só por dizê-la, e imaginem ainda que, pronunciando a mesmíssima palavra, é capaz de nos dizer exactamente o seu contrário. Imaginem uma voz com as cordas vocais no coração. Imaginem que este texto não existe, imaginem que este vídeo não existe, mas não deixem nunca de saber que «A Voz» existe. E imaginem o absoluto silêncio para a escutarem: Senhoras e Senhores, Mr. Leonard Cohen


13 março 2007

Mnemonizável

Pensas um minuto em silêncio. Passas as mãos pelos braços, como se sentisses calafrios. Reparo na expressividade das tuas mãos: igual à de todas as palavras jamais ditas. Acendes um cigarro

- Lisonjeada, mas não aceito. – tu
- Posso perguntar porquê? – eu
- Nunca saberia se me fazes essa proposta por ainda me amares, ou por não suportares que, nesta cidade que tanto odeias, viva a pessoa que tu amas. – tu, e reparo no timbre aveludado da tua voz.
- Acabas de te contradizer, mas percebo-te. Adeus – eu
- Adeus – tu

e o fumo começa a vaguear pela sala. Tal como a minha raiva àquela cidade; tal como o desconsolo da minha alma.
Dirijo-me ao aeroporto. Volto a passar por todas as rotundas e todos os semáforos. O semáforo da emigrante arruinada está fechado. Medito

- Quer viver comigo numa ilha cheia de sol? – eu
- Não ser puta! - ela
- Eu sei. Dou-lhe trabalho no escritório e metade da casa para si e para a sua filha.
- Aceitar. - diz ela, com o seu olhar mnemonizável.

e arrisco. Abro a porta e entram as duas. Vou à companhia de rent-a-car entregar o carro: só desejo sair o mais rapidamente possível da Cidade das Três Colinas.
Acordo. Dirijo-me ao aeroporto da Ilha. Na ilha não existem cães que passeiam os donos, não existem rádios que não toquem as cinco mais, não existem aves que rasguem rios e mares em dias de chuva, não existem nuvens hesitantes em céus plúmbeos, não existem paraísos perdidos, não existem emigrantes com um olhar mnemonizável. Talvez exista um sonho, um sonho com cinco sentidos: um sonho mnemonizável. Tal como na Cidade das Três Colinas; tal como na vida.
Regressamos a casa depois de te ir buscar. Entramos em casa em silêncio. Ajudo-te a trazer as malas e a transportar os caixotes de todos os livros, com todas as palavras. Antes de começares a desfazer as malas, abres o estojo do violino. Afinas e preparas o violino. Pela janela, contemplas o azul transparente das águas do Pacífico. Dás arco e começas a tocar uma música melancólica, melancolicamente.
Carlos Malmoro

12 março 2007

Kontrastes 2.0

Aos dois anos de vida na blogosfera e para os seus inúmeros projectos, aqui ficam os votos de felicidades ao meu antigo colega e exímio prosador João Ferreira Dias.
Carlos Malmoro

Mnemonizável

Entro em tua casa. As cores claras da mobília dão um ar fresco, leve e simples à casa, paradoxalmente à Cidade das Três Colinas, cinzenta, suja. Trágica. Para ti reservas uma imagem mais sóbria:
mais sóbria no cabelo longo, ondulando em voltas, escuro, como os sombreados que te contornam os olhos castanhos, escolhos tamanhos, em confronto com a candura da tua tez;
mais sóbria no vestido preto, com decote pouco profundo, mas que não oculta a rigidez dos teus seios, colinas dessa outra cidade que és tu.
Cumprimentamo-nos,

- Tudo bem? – eu
- Tudo bem; vai-se vivendo, vai-se sofrendo. E tu? – tu
- Igualmente. Vai-se vivendo, vai-se morrendo – eu.

e reparo no teu perfume: aquele que te ofereci, aquele que nos esculpia o olfacto nas noites de luxúria: se não sabias que vinha, porque o usas?, que boas ... te recorda?. Ofereces café e uísque. Enquanto vais à cozinha, reparo nas estantes dos livros: são maiores, são novas e já estão inchadas: sempre procuraste nos livros uma outra alma dentro da tua própria alma. A estante da partitura está vazia: sempre procuraste na música a seiva dessa outra alma. O violino repousa numa cadeira. Voltas da cozinha com as drogas da sociedade. Peço-te para tocares um pouco. Aceitas. Tocas um trecho de Bach. Puro.Único, como todo o amor. O amor que tento recuperar. Pedes-me que experimente. Tomo o derradeiro trago de uísque e acedo. O uísque é dos bons: não faz arder as gustativas. Pego no instrumento e colocas-te por detrás de mim. Envolves-me o tronco no teu amplexo, para me auxiliares na colocação das mãos. Fazes com que incline a cabeça sobre o violino. Ao sentir as tuas mãos a tocarem na minha pele, a tua pele na minha pele, sinto o apelo inexorável que sentia há quatro anos. O instrumento, que nas tuas mãos tinha vida absoluta, nas minhas, metamorfoseou-se em quatro arames que gritam, que relincham, à passagem das crinas de cavalo. Sorris com prazer. Abres as cortinas de par em par, e sentamo-nos lado a lado. Lá fora, na praça, ante o rio, as pessoas caminham frenéticas: não estão certas da sua demanda e, simultaneamente, atribuem grave importância a cada um dos seus passos. No rio uma ave faz voo oblíquo, com uma asa a rasgar a água, a outra a tocar o céu. Faço-te a minha proposta,

- Queres vir viver comigo? – interrogo
- Tenho trabalho, tenho casa, tenho tudo aqui...- tu
- Não tens amor. - ataco.

olhas-me incrédula, com a face enrugada. Faço-te uma carícia , alivias o semblante e tento convencer-te:
convencer-te de que a ilha em que vivo, perdida no meio do Pacífico, com apenas dois mil habitantes – mil vezes menos que esta cidade - , em termos de qualidade de vida é um paraíso perdido;
convencer-te de que não existe maior coragem que abandonar os portos do conforto e navegar nos mares do momento;
convencer-te de que o passado, presente e futuro não existem nos sentimentos e que, exactamente devido a essa condição humana, amo-te hoje como te amava no passado; amar-te-ei amanhã como hoje te amo;
convencer-te de que, no amor, o tempo é um mito

11 março 2007

11 de Março de 2004 - Madrid





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Carlos Malmoro

Gosto de prosas...

assim: absolutas, sem margens para grandes comentários, apenas deixando espaço para uma leve vénia.
Carlos Malmoro

Mnemonizável

O boneco começa a piscar. Uma última pessoa que atravessa a passadeira, é passeada por um Serra da Estrela e por um S. Bernardo. Pelo ar satisfeito e o pelo pêlo brilhante dos animais, concluo que estão melhor alimentados e tiveram melhor higiene hoje do que a emigrante e a criança na última semana. Cidade hospitaleira. Recordo o motivo que me fez sair da Cidade das Três Colinas: não nos concede um pouco de eutimia. Finalmente o sinal abre.
Decifro o labirinto de cruzamentos, entroncamentos, rotundas, faixas de aceleração e desaceleração, sentidos proibidos e obrigatórios e, por fim, consigo estacionar o carro em frente do prédio de Rita. Vivera trinta anos na Cidade das Três Colinas, só hoje me apercebo que o trânsito desta cidade não tem uma direcção definida: anda às voltas. Interminavelmente. Como um gigantesco carrossel. Como o remoinho que observara do cimo da colina. Saio do carro. Reparo no céu que volta a fechar-se em nuvens de chumbo. Descaio um pouco o olhar e detenho-o no castelo, que fica no cume de uma outra colina. Onde um dia, no lusco-fusco de um crepúsculo primaveril, eu tornei Rita mulher e ela fez-me homem.
Desço definitivamente o olhar para o segundo esquerdo. Há luz. Toco a campainha e, depois dos ruídos do intercomunicador e do diálogo identificativo
- Quem é? - Rita
- Sou o David – eu
- Olá, que boa surpresa. Sobe – Rita.

a porta abre-se. Empurro-a e entro novamente na tua vida.

10 março 2007

A propósito...

...está a decorrer no GR, durante este mês, a Festa da Música. Os artistas de topo cancelaram as suas agendas para actuarem no nosso palco. Considerem este post como um convite personalizado. Como está dito, as entradas são grátes e podem levar par. Pensámos originalmente numa festa da cerveja, mas a logística era complicada.

Carlos Malmoro

One

Sob um impiedoso estio, eu e mais dois amigos, rumámos no dia 16 de Junho de 1993 ao antigo Estádio de Alvalade. Canções na ponta da língua, cabelo pelo meio das costas, preto como uniforme. A razão que nos levou a enfrentar quarenta graus, 60 mil pessoas em delírio e uma revista mais apertada à entrada para o recinto, foi a presença pela primeira vez em Portugal daquela que eu considero «a» banda.

«A» banda tinha editado um álbum duplo há dois anos atrás, um enorme sucesso, multiplatinado, que chegou a fazer com que alguns dos seus fãs mais antigos – era uma banda de culto – a acusassem de se terem vendido ao mainstream. Esse disco ficou mais tarde conhecido como «The Black Album».

Acontece que «a» banda, por onde passava, devastava tudo à sua volta. A sua perfomance vertiginosa, empolgante, intensa, épica e poderosa não deixava ninguém indiferente. Naquela noite deram um concerto inolvidável - tenho-o como o concerto da minha vida.

Assim sendo, para quem precisar de apreender o conceito de vertigem sem ir ao dicionário, para quem quiser relembrar o concerto de 93 ou para quem queira somente escutar uma peculiar definição de Democracia, deixo-vos com o primeiro teledisco que os Metallica gravaram: «One».


07 março 2007

Mnemonizável

Melancólico, melancolicamente avisto o ruído da cidade onde nasci. Do alto da colina, contemplo o fluir do trânsito em remoinhos. Os jardins de Outubro despem-se do verde vigoroso e vestem o amarelo dourado. As árvores despem as penas áureas e as ruas vestem-se com passadeiras de desencanto. A terra já emana o perfume supremo: acabara de chover. Os espíritos ensimesmados revelam-se no olhar mortiço das pessoas e o céu plúmbeo absorve a réstia de esperança das almas: até os pássaros fogem para o Sul.
Desço a colina de carro. Procuro uma rádio que não me massacre com as “cinco mais” do top que as editoras mais ricas manipulam. Encontro e festejo com um sorriso. Acompanho os primeiros acordes com um assobio. Escuto a letra e penso:
penso no significado que o poeta quis imprimir àquelas palavras, no recanto íntimo onde as escreveu, no tempo em que as viveu ou imaginou, nas cambiantes que as matizaram;
penso em R., no modo como me irá receber passado tanto, tanto tempo, no modo como estará vestida, penteada, maquilhada, em que sítio estará empregada, no modo com irá reagir ao meu propósito de a levar para a ilha onde vivo e, a partir daí, recuperarmos o nosso tempo;
penso em R. e nesta busca do tempo perdido.
Entro na cidade. O sol irrompe no interstício de duas nuvens hesitantes. A cidade sai à rua. O piso molhado, com o bater do sol, torna-se tão incandescente que não sei se é a estrada que reflecte o sol ou o sol que reflecte a estrada. Paro no semáforo. Uma emigrante, com ar miserável, pede esmola

- Dá uma dinheiro para filha comer. – esvazio o bolso das moedas para a minha mão.
- Tome. Boa sorte. - eu e deixo-lhe todas as moedas que tenho.
- Mil obrigado. - agradece-me.

e exibe a filha como prova da ruína. Agradece outra vez, naquele português miscigenado com a língua pátria. Olho o semáforo que continua vermelho. Observo uma vez mais a emigrante e, pela primeira vez, reparo no seu olhar:
um olhar vívido, safírico, de esperança que, a despeito da miséria, continua a resistir e a viver, ao contrário dos olhares das pessoas que atravessam a passadeira que, tendo todos os motivos para serem felizes, lastimam-se no olhar vazio, de quebranto, entediante, de seres que vivem alienados da sua existência;
um olhar de uma beleza tão imensa, de uma expressão tão intensa, que todas estas palavras são vãs para defini-lo e creio que nenhuma obra de arte conseguirá representar, não os olhos (isso até seria simples), mas a expressão, a luminosidade e vibração daquele olhar;
um olhar mnemonizável.

06 março 2007

O contrário do euromilhões: o difícil é falhar

Cinquenta milhões de blogues vezes centenas de posts na blogosfera, milhares livros por cada país, milhões de letras de canções, uma miríade de jornais diários publicados mundo fora, incontáveis lendas, quase infinitos filmes, vídeos, séries de TV, anúncios publicitários, conferências, exposições que acontecem no planeta,…. Perante esta plêiade de ideias, tem a certeza que a sua é a original?
Carlos Malmoro
PS: Por certo já houve uma ideia igual a esta, mas fica aqui o meu melhor «plágio»

Neon Bible

Geniais, fora-de-série, surpreendentes, magníficos, épicos, religiosos, imortais, soberbos, libertinos, originais, vulgares, extraordinários, espirituais, next big thing, logro,… Já os caracterizaram com todos estes adjectivos. O produtor de J. Cash, L. Cohen e Bob Dylan, após ter trabalhado com eles no último álbum, afirmou que «vão ser mostruosos: compõem melhor que Lennon.» Fora os exageros, e no dia em que lançam o seu segundo álbum, Neon Bible, o adjectivo que penso melhor encaixar aos Arcade Fire é aquele o locutor de rádio utiliza ao introduzir o single de apresentação, Intervention, no “vídeo” que está aí em baixo.


Carlos Malmoro

04 março 2007

Rotinas #1

Como sempre, ao Sábado, comprei um saco de jornais. E, por gosto, os únicos jornais que não compro são os que vêm dentro de sacos.
Carlos Malmoro

01 março 2007

Being Carlos Malmoro

- Bom dia
- Bom dia

O pensamento dela tem ordem. Eu passo da bolonhesa para a pós graduação e volto aos Kaiser Chiefs. A propósito: como temia espalharam-se ao comprido. Lição a tirar: só somos verdadeiramente bons num determinado registo. Mas isso a mim não se aplica que sou geminiano. E porque não Bruxelas?. Aliás, e porque não alugar um carro e percorrer a zona central da Europa. Já conheço o Norte e Sul, falta-me o miolo. Não esquecer: segunda, consulta de rotina. Quando fez a observação ao valor do corte, esqueceu-se dessa instituição nacional que é o «cliente habitual»: já deve estar em Bruxelas há muitos anos. Ao fim do dia, passar pelo hiper, pela livraria e pelo centro de análises para levantar os resultados. E seu eu lesse os resultados? Aquilo é fácil.: aparecem valores indicados em forma de intervalo numérico, se o resultado estiver dentro do intervalo, continuo bom para as curvas... Mas a bolonhesa não deve casar muito bem com colesterol. A dela pode até ser melhor... Já quanto à minha omoleta, aquele p… ingrediente secreto… sem palavras de tão divina…Por pensar nisso, ainda não há nada para a janta … Mas uma omoleta?E o colesterol? E os textos e as ideias ainda estão por escrever e já estamos no fim de semana. Chato ser assim indeciso... Logo à noite será omeleta… Ainda sorrio quando penso na resposta dela ao post. É impressionante esta devassa que me obrigam aqui a escrever. Desta vez, não fico só pelos pensamentos:

- Ó minha senhora, para que quer o Estado saber que grupo sanguíneo é o meu num requerimento?!?
Carlos Malmoro

28 fevereiro 2007

Two More Years*

Dois anos a escrever páginas de diário; dois anos a reclamar contra o cinzento, a chuva e a trovoada; dois anos a escrever crónicas. Mas o que importa dizer é que tanto as reclamações como os diários ou as crónicas são sempre escritos em grande estilo. Ao blogue, os parabéns pelo brilhantismo; à autora as «beijocas» do costume com os votos de felicidades dentro.
Carlos Malmoro
* Título de canção dos Bloc Party

27 fevereiro 2007

Que nenhuma luva...

os amordace: o «Foram-se os anéis», mais conhecidos por "Dedos", fizeram ontem um anito. Um brinde a eles e felicidades ao José Nunes.

Carlos Malmoro

26 fevereiro 2007

Being Carlos Malmoro

- Boa Tarde
- Boa Tarde

Que dia… E hoje ainda é segunda. Tenho que passar pela farmácia. Como se chamam mesmo? Concor? Concord? Que só haja uma dosagem: não faço ideia quantos mg’s serão. Ah, a ourivesaria é ao lado. Passar por lá. Quantos são? 26, então ainda não está pronto. O R. e a C. vêm cá passar o fim de semana e não sei que programar. Verificar as facturas para não acontecer pagar a actual e ficar a anterior por pagar. Logo, ver as condições da pós graduação. Telefonar à S. para acertar as viagens. Pensei em Berlim, já estou em Munique. Barcelona: um pulo num fim-de-semana. A partir de amanhã começar a preparar o final do mês na empresa. Ironia do dia: o mês de Fevereiro apanhou-me de surpresa não ir até dia 31… Estarei a ficar com entradas ou é do penteado ou a testa alta. Engraçado dizer-se que a testa alta é sinónimo de inteligência. Conheço muita testa alta burrinha. De qualquer forma é forte e cresce num instante. E o dente que não pára de doer, inflamar ou ficar com sensibilidade. E a língua masoquista que não pára de ir lá mexer para provocar dor. Mas tudo parava se fosse a um dentista. Coisa que adio há uns três mesitos. Logo à noite, descarregar o novo dos Kaiser Chiefs. Disseram na entrevista que mudaram, porque queriam que os levassem mais a sério. Se mudaram assim, espalharam-se ao comprido. Mas logo veremos. E escrever qualquer coisita. Tenho umas cinco ideias, três delas são boas, e não as escrever, não é falta de inspiração: é preguiça. Para a janta talvez o esparguete à bolonhesa. Então tenho que passar pelo supermercado para comprar o b…meu ingrediente secreto. Puxei demais na natação: tenho certas partes tensas. Ah, outra coisa, começar a pensar em escrever o convite. E ainda não sei o nome nem os convidados…ver isso. «Can’t find you now…» o tom como ele canta isto ainda dá mais melancolia ao desalento do verso. Encontrar o Fim de Partida do Beckett e aquele livro de entrevistas Os Escritores e a Literatura. Fazem falta para os textos. Virou-me a cadeira e está a sacudir-me. Tenho que despachar sete chamadas. São todas rápidas. Está a escovar-me. Ainda bem que acabou: já estava farto de ouvir falar de bola.

- Está bem assim, sr. Carlos?
- Está. Já serão entradas?
- Não, o senhor tem a testa um pouco alta.
- Quanto lhe devo pelo corte e pela barba?
- Dez euros.
Carlos Malmoro

23 fevereiro 2007

Post's de continuidade

Como antigamente existiam as locutoras de continuidade (referência só para maiores de vinte cinco), no tempo da web 2.0 existem os post´s de continuidade. Analogamente às locutoras, os post´s de continuidade aparecem para cumprir os serviços mínimos de postagem que qualquer blogue que não se deseje vetado ao esquecimento necessita. Para além disso, servem de ponte entre um texto bem conseguido e um outro que teima em nascer.

Normalmente, estes posts surgem porque atravessamos uma fase da nossa vida em que temos a “agenda tão sobrecarregada que nem há tempo para morrer”(Gore Vidal), ou porque não temos assunto, ou porque nos falta a inspiração para desenvolver determinada ideia que julgamos sublime demais para o arrazoado que estamos a verter no ecrã (ia escrever «papel»…snob!). Ou então, e não raro, as três hipóteses em conjunto.
Os posts de continuidade são, exemplificando, a poesia que se coloca sem um único comentário, o vídeo do YouTube a dizer que o novo dos Arcade Fire vem aí, o quadro de um imortal com um verso de um outro imortal como título, a chalaça/trocadilho/aforismo fáceis ou a foto com a legenda indicando apenas o local a que se refere. Mas, melhor do que exemplos estereotipados, a principal característica de um post de continuidade é que se distingue assim que se lê/vê.

Chegados aqui, e isto já não vai curto, peço-vos que não me interpretem mal: também eu coloco os meus posts de continuidade. Acho-os um mal necessário e até existem certos blogues em que os mesmos são mais estimulantes que os post´s, como hei-de chamar-lhes?, programados. Porque sobre este assunto só tenho uma imensa certeza: comparativamente às locutoras de continuidade, os post’s de continuidade são infinitamente mais interessantes.

22 fevereiro 2007

A pergunta a que nenhum blogger quer responder

«-Há quanto tempo começou o blogue?
-Três anos.
-E quando é que o acaba?»

Esta última pergunta é maravilhosa em dois sentidos: porque os bloggers raramente se dão conta que iniciar um blogue é entrar no mundo do infinito (tem início mas não tem fim), e porque quem escreve regularmente já não sabe passar sem 'isto': há tanto assunto para opinar, e, quando não há, existem sempre os «posts de continuidade» (explicarei mais tarde) para manter o bicho faminto saciado.
Mas o aspecto peculiar desta pergunta é que ela não foi feita por nenhum estudioso da web 2.0 ou dos blogues. Foi feita pela visita regular cá da casa, numa breve pausa da torrente de perguntas sobre o modo como funciona o messenger com imagem (tinha que ver a Sofia, dizia ele). E, como sabem, a «visita regular» cá da casa conta com três mil dias de idade
Carlos Malmoro

20 fevereiro 2007

Como é normal...

Sou um urbano telúrico. Sou um clássico pós moderno. Sou um melancólico bem-humorado. Sou um pessimista optimista. Sou um generoso avaro. Sou um impetuoso sereno. Sou um enfermo saudável. E para concluir em duas palavras decerto apreciadas por estas caríssimas, sou um geminiano geminiano.
Carlos Malmoro

This is incredible



Eu sei que isto parece de adolescente - e é -, mas há muito tempo que não desejava tanto poder escutar um novo trabalho de um grupo como actualmente acontece com os Arcade Fire. É que já não me lembro da última vez que uma banda conseguiu inovar tanto e, simultanemente, alcançar um som tão conseguido. «This is incredible» - Diz o locutor da rádio acerca de «Intervention», o primeiro single do novo álbum. Eu diria genial.

Carlos Malmoro

17 fevereiro 2007

Agenda de fim de semana

«We took a back road.
We’re gonna look at the stars.
We took a backroad in my car.
Down to the ocean, it’s only water and sand
And in the ocean we’ll hold hands. »

Carlos Malmoro

15 fevereiro 2007

Das raízes

Este foi o primeiro disco que tive. Deu-me, em 1979, o meu padrinho. Tinha 5 aninhos. Desde então devo ter escutado milhares de horas de música, quase toda ela de melhor qualidade, com melhores letras e com composições que deixam esta a anos-luz. No entanto, é-me completamente impossível esquecer esta canção, mesmo com a sua letra de puxar à lágrima, com frases como «tu és linda e bonita» e com solavancos rítmicos que nada se adequam à melodia.

Ainda o tenho comigo. Na capa, a dedicatória «Para o Carlitos, um grande homem», faz com que o que eu atrás disse da fraca qualidade da canção, se desvaneça completamente e que possa afirmar - sem qualquer tipo de embaraço - que adoro esta música. Porque tem lá dentro um tempo, uma infância, uma recordação, uma amor, um desejo e uma saudade.

E porque me faz lembrar um determinado tempo, e porque me faz crer que o melhor de nós nasceu na infância, e porque se torna a minha «madalena» para recordar o meu padrinho, e porque está lá dentro o meu amor por ele, e porque, para mim, perpassa através da música toda a saudade de um parente distante, digo que esta não é a melhor canção que ouvi, mas a melhor canção que vivi.
Carlos Malmoro
PS: Se quiserem escutá-la, vão aqui, e na coluna da esquerda cliquem em cima de «Una moca chovara». Eu sei, está mal escrito ;)

14 fevereiro 2007

Dia de S. Valentim

Na celebração do S. Valentim, aqui fica um excelente vídeo de Tim Burton, para uma igualmente soberba música dos «The Killers», onde, a propósito, há cenas de amor em nu integral. Não resistam.


Carlos Malmoro

Como podem reparar...

estou em obras. Como este é um blogue que se orgulha de ser português, existirão derrapagens nos custos e nos prazos. A vossa paciência, portanto. (a minha já desapareceu há cerca de duas horas.)
Carlos Malmoro

13 fevereiro 2007

O Primogénito

Este post é uma confidência. Descobri que este foi o primeiro blogue. Agora há cerca de 50 milhões de blogues (números da wikipédia). Segredo: eu também gostava de criar uma ideia que tivesse meia centena de milhão de seguidores.

Carlos Malmoro

PS: Eu sei que é megalómano, mas isto passa rápido.

12 fevereiro 2007

O homem que não gostava de ser sequestrado

«-Estou farto de brincadeiras, ok?...
-Que brincadeiras eram?
-Então, fui sequestrado, já duas vezes, já chega, não gosto de ser sequestrado, é uma coisa que me chateia, pá (...)» Almirante Pinheiro de Azevedo



pelo venerável «Arcebispo de Cantuária»

Carlos Malmoro

Já que falamos de telemóveis...

No menu do meu telemóvel, a função fazer chamadas vem colocada em 9º lugar de 12 possíveis. Está aqui um belo assunto para reflectir. Mas agora vou jantar. Prioridades.

Carlos Malmoro

11 fevereiro 2007

Fachada, dizem eles; choque tecnológico, contrapomos nós

Durante esta semana, recebi a visita de um casal amigo. São suecos, e entre o mau português deles, o meu péssimo francês e o nosso tolerável inglês, lá nos fomos entendendo. São duas observações que R. fez que me trazem aqui.
A primeira refere-se à surpresa deles quando viram os alunos de uma C+S saírem escola fora na hora do almoço. Para eles, isto é inconcebível: as crianças devem ficar o tempo todo na escola. Discordo desta perspectiva: não penso que obrigar os alunos a permanecer dentro da escola no intervalo para o almoço, possa estar, de algum modo, relacionado com o sucesso ou o insucesso escolar.
Posteriormente, ao observarem que os alunos vinham todos a falar ao telemóvel, começaram a perguntar-me por que razão tinham quase todos telemóvel, quem é que lhes pagava as contas, se havia mesmo necessidade de tanta comunicação tecnológica, e se Portugal era mesmo um país pobre. Eu, numa tentativa de defender o portuguese way of life, lá fui balbuciando que eram os pais que lhes pagavam as contas, que é claro que não há necessidade de haver tantos telemóveis nos alunos, mas que, embora pobre, nenhum pai quer que o seu filho fique privado de uma ferramenta que, possivelmente, considera indispensável para o seu desenvolvimento, e que pode sempre surgir uma emergência, e que blá blá blá... Ele apenas me perguntou muito directamente:
- Não havia necessidade, pois não, Carlos?
- Ok, R., concedo: não.
- É tudo por uma questão de fachada, não é, Carlos?
- Ok, desisto: é.
Carlos Malmoro

09 fevereiro 2007

Arcade Fire: Rebellion (Lies)

Estava a pensar em fazer uma última declaração de voto, não a combater os argumentos do «Não», mas a afirmar os argumentos do«Sim». Tinha pensado em dizer que as condicionantes propostas na pergunta mereciam todas a minha aceitação: que «por opção da mulher» porque se evitariam as IGV's «fortemente aconselhadas» por pais e namorados e porque se não se consegue acreditar que uma mulher tem o senso necessário para recorrer à IGV só em último caso, então como educará essa mulher uma criança?
Tinha, igualmente, pensado em dizer que até «às dez semanas» e em «estabelecimento autorizado» dava, às mulheres e à sociedade, as garantias que a IGV era feita em condições mínimas de dignidade para as primeiras e de saúde pública para a segunda, dentro de prazos razoáveis. E o mais importante de tudo e o que está em causa no domingo: é claro que concordo com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez.
Também, finalmente, pensei em falar acerca dos meus receios dos resultados de domingo: a sociedade portuguesa já deu muitas mostras de hipocrisia e não me admirava nada que alguns daqueles que estão pelo «SIM» o estejam só porque é politicamente correcto estar deste lado, mas que no momento do voto...; e que os votantes do «SIM» são menos militantes do que os do «Não». Espero estar enganado, mas não estive há 8 anos.
Estava a pensar dizer isso tudo, mas preferi não fazê-lo. Vim aqui, apenas e só, para anunciar a boa-nova: os senhores aí de baixo vão editar o segundo álbum em Março, intitulado Neon Bible, gravado numa igreja que eles compraram para o efeito e que já está diponível o single de avanço intitulado «Intervention» .
Era isto que eu queria dizer.

08 fevereiro 2007

Dr. House vs Dr. Jorge

A propósito disto:
existe também um Dr. House à portuguesa. O último parágrafo do post da Luna encaixa que nem uma luva ao protagonista do romance «Domingo à Tarde», de Fernando Namora. Também era insociável, mau feitio, com humor negro, de personalidade forte e os seus pacientes eram doentes terminais. Não sei é se o Dr. Jorge era um «feio-bonito».

Carlos Malmoro

Quem aprendeu a andar de bicicleta

nunca esquece. É impressionante este senhor aqui em baixo, fazer aquele crescendo e terminar de forma arrebatadora o concerto que voltou a re-reunir os amigos, em 1993, na tournee «Old Friends: Live on Stage».
O momento de que falo, passa-se a partir dos 3 minutos e meio do vídeo até ao seu final e dá gosto ouvir um homem de 62 anos, na altura, com aquela voz e aquele pulmão, cantar uma muito bem conseguida letra que estes dois amigos desavindos durante 30 anos compuseram - ironia - sobre a amizade.

Carlos Malmoro

07 fevereiro 2007

Deduções à colecta

Se por cada asneirola proferida nesta campanha fosse cobrado um euro, Portugal já tinha acabado com o problema do défice.

Carlos Malmoro

Uma outra grande pergunta

E agora, como é que se tiram os anúncios do Google (adsense) lá de cima?

Carlos Malmoro

05 fevereiro 2007

O tempo passa

Parabéns à sinapse e, atrasados, à 125_azul, pelo primeiro aniversário dos respectivos blogues. Votos de longevidade e felicidade para os meninos. Se bem que para a azulita os votos não são só para o «menino» escrito em itálico...
Carlos Malmoro

04 fevereiro 2007

Do respeito

No próximo dia 11, vou votar sim. As duas mulheres mais importantes da minha vida, a minha mãe e a minha namorada, votaram «não» há oito anos. Por razões da vida e da morte, este ano a minha mãe não vota. Se o fizesse, sei que votaria, novamente, não. A minha namorada, está indecisa: votaria não se lhe garantissem que indignos espectáculos como o da Maia não voltariam a acontecer e se se criassem condições de higiene para que ao número de abortos não se juntasse um número de mulheres com lesões, inférteis ou mortas pelos abortos feitos em vão de escada; votaria sim se lhe garantissem que a mulher teria direito a um acompanhento do acto, com informação, dissuasão e análise que garantisse que o acto é realmente por opção da mulher e não por coacção da família, namorado, etc.
Mas nenhuma das duas opiniões, a minha ou a delas, é relevante aqui. O que é realmente relevante é que a minha mãe com a 4ª classe, e a minha namorada embora doutorada, uma pessoa simples que cresceu na aldeia, ambas cristãs e católicas, tenham mais democracia nelas do que aquelas nossas elites que passam a vida a defender a diversidade de opiniões, que estão constantemente a dar loas à liberdade de escolha, mas que, ao que parece pelos argumentos insidiosos, baixos, rascas, aduzidos por ambas as partes, volto a frisar, utilizados por ambas as partes nesta campanha para o referendo, parece que as nossas elites, dizia, não admitem quem pense diferente.
Nunca me senti atormentado por ser ateu junto delas, nunca olharam de esquina por ter convicções diferentes das delas, nunca me chamaram assassino pela posição que tomo neste referendo, sempre foram mais pela tolerância de Cristo do que pelo sacrifício do Vaticano, nunca tentaram mudar a minha posição, embora sempre me pedissem que me explicasse para que compreendam também a minha posição, isto é, e numa palavra, nunca me julgaram. Assim como eu tento compreender sem julgar a posição delas. E isto, embora parecendo, nada tem a ver com o amor; tem antes a ver com o respeito.
Carlos Malmoro

31 janeiro 2007

Notas nas margens dos livros*

Por mais político que seja o tema do ensaio, um livro de Eduardo Lourenço é, antes de mais, uma singular obra de arte. A forma como ele pega nos assuntos e vai por ali fora, quase divagando, fazendo-nos crer, a determinada altura, que já nada do que nos é proposto tem realmente qualquer tipo de ligação com o objecto do ensaio; as voltas que dá, levando-nos a pensar que está a centrar-se no acessório e a fugir do fulcral; a demonstração que nos faz que também o lateral e o acessório devem ser apreendidos quando se pretende analisar um universo, e a suprema mestria de fazer tudo confluir para a ideia que nos quer transmitir, são particularidades que só estão ao alcance de raras penas.
*[adaptadas]
Carlos Malmoro

29 janeiro 2007

Ele mete "dedos" a falar e democracias a funcionar

Este homem teve a iniciativa, não de protestar, mas de querer mudar o que lhe parecia mal. Este homem não fez uma birrinha: escreveu, orientou e foi primeiro assinante da petição que tentava alterar aquilo que ele achava incorrecto. Depois, pediu-nos que assinássemos. Eu, que nunca tinha assinado uma petição, fi-lo pela primeira vez (passe a redundância). As razões: era uma causa em que acreditava; a petição estava bem fundamentada; e, finalmente, e desculpem lá a falta de rodeios, a TLEBS era má demais para ser verdade.
Deixo-vos expresso neste mail, que o Zé me enviou na Quinta-feira passada, e que os problemas informáticos da semana passada impediram que fosse mais cedo publicado, o resultado de tamanha empreitada:
A petição contra a experiência TLEBS foi hoje entregue ao dr. Jaime Gama, Presidente da AR, à Dra Suzana Toscano, assessora para a Educação da Casa Civil do Presidente da República , à recepcionista da Residência Oficial do Senhor Primeiro-ministro (não estava ninguém disponível para receber a petição...) e ao Senhor Secretário de Estado Adjunto e da Educação, Dr. Jorge Pedreira.

Versão Beta

Vou agora mudar este estaminé para a versão Beta. Durante algumas horas ele estará inacessível. Espero que volte direitinho.

Carlos Malmoro

28 janeiro 2007

Os computadores não são máquinas

A partir de segunda-feira passada, o meu computador começou a fazer um ruído estranho. Terça-Feira, além do ruído, uma lentidão de fazer perder a paciência a um monge. Quarta-feira, telefono, logo de manhã a quem percebe mais da poda do que este curioso. Diz-me ele: «O disco, Carlos, o disco está a entregar a alma ao criador.» [não foi com estas palavras, mas, enfim, há que alindar um pouco o texto dando-lhe um certo dramatismo.] Quarta-feira à noite, o computador pura e simplesmente não arranca.

Estou perdido, pensei. Afinal, dezenas de trabalhos, textos, programas, aplicações e, acima de tudo, meia-dúzia de trabalhos não concluídos, daqueles extensos, mas particamente prontos, estavam no disco agonizante. Quinta-feira, visita-me o técnico para dar a extrema-unção ao dito cujo. Ligo e computador, e ele arranca normalmente. Com a mesma rapidez de outrora, o meu disco toshibazinho tinha voltado do Além.
Em quarenta minutos, faço cópias de segurança de tudo o que de mais importante tinha lá guardado. Acabo de fazer as cópias, começa o ruído, a lentidão, e, kaput. Foi-se. Desta vez definitivamente. O técnico ainda brincou com a situação, dizendo que a mesma se assemelhava àqueles filmes que antes do herói morrer, diz não sei quantas frases, ainda tem tempo para matar três vilões e dar um beijo à heroína. Eu não me ri. Afinal, o meu toshibazinho tinha, mais uma vez em três anos, salvo o que de mais importante o meu trabalho produz.
Hoje, domingo à noite, ele está aqui mesmo à minha frente. Dentro do computador, já está um outro irmão dele. Mais novo, mais viçoso, mais rápido e mais potente. Esperemos que igualmente fiel.
Carlos Malmoro

Pedido de calor a uma guitarra eléctrica distorcida

Eu sei que os blues necessitam de chuva para serem escutados. Mas para esta regra ser válida, deverá existir uma excepção. Que assim seja: fica aqui Chris Rea com «Road To Hell». Para que a chuva venha e o frio desapareça.
Carlos Malmoro

22 janeiro 2007

Perseguir até ao fim achar o mar

Estava firmemente decidido a organizar este milhar e meio de livros a que chamo «biblioteca». Quem fez a contagem foi um amigo de nove anos. Perguntei-lhe porque os contava, respondeu-me que quantos mais livros se tem mais esperto se é. Disse-lhe que se não tivesse lido nenhum deles não era esperto; era vaidoso. Ele respondeu-me que se gastava tanto dinheiro em livros, de certeza que os lia. Pensei para comigo: já cá faltava a inexorável e desarmente perspicácia infantil.
Adiante: organização, é isso que se procurava: portugueses para um lado, estrangeiros para outro. Poesia para cima, romances ao centro, ensaio em baixo. Livros escolares, de referência e didácticos noutra estante. Ao melhor espírito burocrata. Se calhar até não ficava mal uma numeração, com uma base de dados e tal...mas eu conheço-me.
Conheço-me o suficiente para saber que ao arrumar um livro vou ler os sublinhados, ver se era naquele livro que estava a tal frase, se era aquele com o pior começo ou com a melhor epígrafe. Enfim, um livro por meia hora.
Exemplificando: ao arrumar o livro «Até ao Fim», de Vergílio Ferreira, recordei-me logo da entrevista que tinha lido dele em que dizia que o título do livro tinha saído de um verso de António Ramos Rosa. Diz em epígrafe (o tal verso): «perseguir até ao fim achar o mar». E pus-me a pensar que ele não tinha necessidade nenhuma de colocar um verso que tem uma expressão 'corriqueira': quantas vezes por dia não se diz: «faz isso até ao fim»; «vai até ao fim da estrada»? Mas ele, um grande escritor, e pelos vistos um grande carácter, colocou-a lá para nos dizer isto: a ideia veio daqui. E este escrúpulo levou-me ao interior do livro onde ainda ando «perdido». E foi também este escrúpulo que me fez firmemente decidir desorganizar o que da biblioteca já havia organizado.
Carlos Malmoro

19 janeiro 2007

Literalmente

Há trinta anos, a minha mãe disse-me: «Agora que já és um homem, passas a dormir sozinho.» Tenho tentado corresponder.

Carlos Malmoro

18 janeiro 2007

Parece-me que o mês de Janeiro já devia ter acabado há 12 dias.

Carlos Malmoro

16 janeiro 2007

Os textos e a sua construção

O processo de construção do texto é tão ou mais cativante do que o próprio texto. Reformulo: a construção de qualquer obra é tão ou mais empolgante do que a obra. Tomando à priori um exemplo de um texto genial, é sempre com assombro que se desvenda, por exemplo, numa versão fac-similada, os processos com que este foi conseguido. Assombro, não pela genialidade do texto; antes pela fragilidade/humanidade com que, exemplifiquemos, um exímio poema foi construído. Aquela sensação de que estamos muito distantes do génio, desaparece no exacto momento em que os processos que foram utilizados para o criar são os mesmíssimos que utilizamos quotidianamente para escrever uma carta de reclamação ao servidor de net: escrever, rasurar, complementar, organizar as ideias, etc.

Ou seja, passa a existir um acontecimento de identificação. E esta identificação entre uma carta profissional e um poema, não tem um efeito banalizador sobre a tal obra de arte, afastando-a por efeito de menosprezo da sua qualidade. Promove uma aproximação entre o leitor e o poeta na medida exacta em que o último deixa de ser uma semi-divindade para o primeiro e passa a ser um homem comum. E, convenhamos, os homens preferem conviver com homens do que com deuses.
Carlos Malmoro.

15 janeiro 2007

Leonard Cohen

«Pergunto-me quanta gente nesta cidade
vive em quartos mobilados.
Tarde na noite quando olho os edifícios
juro que vejo um rosto em cada janela
olhando-me a mim,
e quando me volto
pergunto-me quantos regressam às suas mesas
e escrevem isto.»

14 janeiro 2007

Homem, Dr.

Tem a idade da sabedoria. A fina ironia encontra a máxima expressão nas suas hebdomadárias crónicas.

Crónicas com verve. Uma escrita de fundo. Que precisa de tempo e espaço para viver.

Viver e escrever: a causa e a consequência. É o cronista que escreve com mais classe em Portugal. Escreve-nos de Moledo. Chama-se António Sousa Homem. Diz não ter «email», mas tem blogue. Tem a sabedoria da idade.




«Por mim, tenho resistido à exigência de possuir um telemóvel no bolso. A idade não mo aconselha, vou dizendo. Nos bolsos, uso apenas um lenço, o relógio que pertenceu ao meu avô (que o recebeu de um inglês do Douro a quem administrava as vinhas) e a pequena caixa que contém a dose diária dos comprimidos que cuidam das pobres coronárias. A minha sobrinha Maria Luísa, que tem dois telemóveis, tentou informar-me das vantagens de comprar um; parece que a principal delas é poder falar com quem queremos, onde quisermos, além de podermos ser contactados em qualquer lugar, coisa que não me seduz muito. Bem vistas as coisas, o único estranho que me contacta sempre à mesma hora é um senhor da rádio que, logo de manhã, me esclarece que chove em Lisboa ou anuncia que vai trovejar no Porto ou nas Beiras. Aguardo pacientemente que me informe sobre a queda das folhas da meia dúzia de plátanos ao fundo da rua, ou sobre a hora a que chega o correio ao portão de casa. Ele mantém-se renitente. Teimamos, cada um por seu lado. É isto a vida.» in Revista Notícias Sábado – 2 Dezembro 2006
[imagem retirada daqui]
Carlos Malmoro

13 janeiro 2007

Pensamento da Noite

Ansiedade controlada é desejo.

Carlos Malmoro

12 janeiro 2007

As Sete Maravilhas de Portugal

Mais um concurso. Como é impossível votar nestas maravilhas, aqui ficam as minhas sugestões:






  1. Os Lusíadas: porque ainda hoje é o melhor auto-retrato de Portugal e dos portugueses;
  2. Livro do Desassossego: porque é o melhor blogue que alguma vez foi criado;
  3. Os Maias: porque vale por trinta anos de leituras de crónicas de jornal;
  4. Violino - Amadeo de Souza Cardoso: porque ainda se considera prematura uma obra com quase cem anos;
  5. Auto da Barca do Inferno: porque Woody Allen é um Gil Vicente do séc. XX/XXI;
  6. Verdes Anos - Carlos Paredes: porque o hino português deveria ser o instrumental que dá nome ao EP;
  7. Painéis de S. Vicente de Fora: porque antes de seis excelentes frescos, de seis excelentes representações ou de seis excelentes técnicas, é uma excelente ideia.

E estas maravilhas e não as outras, porque o melhor de Portugal não está no seu património arquitectónico mas no artístico.

[imagens: capas dos livros retiradas da loja online fnac.pt; capa do EP de Carlos Paredes, obtida por scanning; pintura "Violino", scanning meu do livro : Pintores Portugueses (Edições INAPA); Painéis S. Vicente de Fora, via sapo.pt.]

11 janeiro 2007

Contra a TLEBS (ii)

esta petição, promovida pelo José Nunes, já ultrapassou as quatro mil assinaturas. Trocado por miúdos, isto ignifica que já tem legitimidade legal para ser requerido o respectivo debate parlamentar. Ao José Nunes deixo aqui um abraço de agradecimento por ter feito todo o trabalho que permitiu que uma causa em que acredito [a necessidade da suspensão imediata da TLEBS], possa ser tratada em local apropriado. Para confirmar cientificamente a tese, no mail que me enviou, o José remete-me para um artigo do Professor Catedátrico de Linguística João Andrade Peres, que demontra as inúmeras falhas técnicas de que TLEBS padece.
Nunca é demais agradecer, e, portanto, um grande abraço ao Zé pela tarefa gigantesca em que se aventurou.
Carlos Malmoro

08 janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

«Não deixes crescer a erva no caminho da amizade» Platão
Variante pessoal:
Por vezes a vida impede-nos de passar no caminho da amizade. A erva cresce. Assim que acabar esse impedimento, o melhor a fazer é convidar imediatamente o amigo para um copo. Como se sabe, tomar um copo/café é o melhor herbicida que se conhece para o caso.
Carlos Malmoro

07 janeiro 2007

Parabéns

à Luna por andar há dois anos a alimentar este inteligente bicharoco.

Carlos Malmoro

05 janeiro 2007

GPS 2007

First we take Frisco, then we take Barcelona and Berlim*


[*adequação do título da canção de L.Cohen, «First we take Manhattan, then we take Berlin»]


Carlos Malmoro

04 janeiro 2007

Citações no rodapé da minha agenda

Quinta Feira, dia 4 de Janeiro de 2006

«O mundo está cheio de pequenas alegrias: a arte da vida consiste em saber distingui-las» (Li Tai Po)

Variante pessoal:

Não há alegria nem tristeza. Há momentos alegres e momentos tristes. A arte da vida está em saborear os primeiros e ultrapassar os segundos.

Carlos Malmoro

02 janeiro 2007

Micro Causa: Anti-Cheque Prenda [ou um sentido agradecimento a quem me presenteou]

Até ao presente dia, nunca me ofereceram um cheque prenda. O que me leva a pensar que quem me presenteia são pessoas que me conhecem demasiadamente bem, ou são pessoas que partilham desta minha aversão a esse conceito, ou são pessoas que partilham da aversão e conhecem-me tão bem quanto eu me conheço.

Sou contra os cheques prendas por eles representarem a lei do menor esforço em dois sentidos: por um lado, a pessoa compra-os e pode ‘riscar-me’ da lista de prendas; depois porque é menos tempo que se gasta – e eu gosto que se gaste tempo comigo.

Por outro lado, sou também contra o cheque-prenda por eles serem sempre exclusivos ou de uma cadeia de lojas ou de um determinado centro comercial. Ou seja, o tempo que não gastaram comigo a procurar uma coisa que se adequasse, teria eu de gastá-lo numa loja que, provavelmente, até nem seria a da minha preferência. Se não compraram com receio de me ‘desapontar’, a escolha da loja poderia desapontar-me.

Finalmente, acho que a prenda tem de ser pessoal. E nisto sou ultra-conservador. E o cheque prenda é a coisinha mais impessoal que conheço. Porque se há uns anos era inconcebível oferecer um cheque prenda, o mesmo tipo de raciocínio leva-me a concluir que daqui a uns anos receberei um envelope com uma notinha de vinte euros lá dentro.
Carlos Malmoro

01 janeiro 2007

Para começar o ano

...com o meu segundo pintor favorito:



William Turner "Rheinfall at Schaffhausen"

Carlos Malmoro

Dez promessas para manter tudo na mesma em 2007

  1. Continuar a comer
  2. Continuar a beber
  3. Continuar a fumar
  4. Continuar a ler
  5. Continuar a escrever/'postar'
  6. Continuar a fazer aquilo que vocês tão bem sabem
  7. Continuar a sair / viajar
  8. Continuar a nadar
  9. Continuar a pastar
  10. Continuar a cuidar dos meus

A lista não está alinhada por ordem de prioridades. Daqui a 364 dias, balanço.

Carlos Malmoro

O melhor de 2006

em filmes:
I'm Your Man (documentário)
Uma História de Violência (como aqui já tinha testemunhado)
Capote (não esquecer nunca Catherine Keener)
Entre Inimigos, de Martin Scorsese
Marie Antoinette, de Sofia Coppola
Match Point, de Woody Allen

Conclusão: sendo que três destes filmes já foram vistos em casa no DVD, resta-me fazer uma nota a mim mesmo a dizer: não esquecer nunca que este ano tenho de ir mais ao cinema.

Carlos Malmoro