29 julho 2006

Caixa Pandora - Três anos

Já escrevi em português, em inglês e em francês. Já escrevi sobre fundo branco, azul e negro. Já escrevi sem música e com, já escrevi sem colocar imagens e coloco-as agora, já escrevi sem a possibilidade de fazer comentários, porque o blogger ainda não admitia essa opção, e agora deixo sempre o «Caixa» com permissão de comentários. Já escrevi sobre comentários hilariantes, profundos e sobre um completamente estúpido. Já escrevi com links, e sem eles, (não sabia como se inseriam), e já escrevi com contador e sem contador de visitas.

Já escrevi coisas banais e sérias. Já escrevi sobre o tudo e sobre o nada. Já escrevi em prosa, em poesia e em prosa poética. Já escrevi pelo simples prazer de escrever e pelo dever enquanto cidadão. Já escrevi sobre o acto da escrita. Já escrevi calmo, irritado, sonolento, com vontade e sem vontade nenhuma. Já escrevi sobre a sociedade, a cultura, a política, o desporto, sobre a minha pessoa. Já escrevi sobre a paixão, a amizade, a sexualidade e o amor. Já escrevi sobre amigos, colegas, sobre mulheres, sobre pessoas comuns e sobre bloggers.

Já escrevi sobre a guerra, as negociações para a paz e sobre a paz. Já escrevi sobre Portugal, sobre a Europa e sobre o Mundo. Já escrevi sobre o aborto, sobre a religião, sobre a educação e a saúde, sobre a sinistralidade rodoviária e sobre a justiça. Já escrevi sobre a direita, a esquerda e o centro, sobre a vacuidade e a importância da política. Já escrevi sobre a economia, sobre o défice, e sobre a má distribuição da riqueza.

Já escrevi sobre música, músicos e concertos, sobre livros, escritores e congressos literários. Já escrevi sobre pinturas, sobre pintores e exposições, e já escrevi sobre cinema, actores, realizadores, Óscares e sobre as cinematográficas pipocas. Já escrevi sobre viagens, lugares, museus, arquitectura. Já «escrevi» utilizando apenas obras-primas de pintores, de fotógrafos, e outras imagens que povoam o meu universo. E também já «escrevi» utilizando a imagem em movimento e o som dos meus favoritos.

Hoje, passados que estão três anos sobre o começo, escrevo o primeiro post de comemoração de um aniversário do Caixa Pandora. O terceiro. Espero continuar por outros tantos. A razão pela qual vale a pena continuar é a de saber que está ainda tudo por dizer, tudo por escrever e tudo por viver.
Carlos Malmoro




Um sincero agradecimento a todos os que me lêem, comentam e linkam. Gostava de vos prometer que o próximo post seria o texto perfeito. Mas não me comprometo com uma coisa que não consigo cumprir. O único compromisso que vos posso assegurar é a promessa de um novo post. Desculpem se é pouco para quem tanto me dá. Carlos

28 julho 2006

O Caminho

Imaginem uma rotunda com seis saídas. Imaginem a rotunda com carros apressados e condutores stressados. Imaginem que uma das saídas dessa rotunda é Viana do Castelo. Imaginem que a placa indicativa dessa saída está deslocada. Imaginem que ela apontava para a terceira saída quando deveria apontar para a quarta. Parem de imaginar e façam uma imagem global com estas imaginações.
Voltem a imaginar um carro a deslocar-se mais lentamente que todos os outros. Imaginem - esta não é difícil de imaginar - que o condutor leva um valente coro de buzinadelas em Dó Maior. Imaginem esse carro a abrir pisca e a encostar. Imaginem que sai de lá um homem com cerca de sessenta anos. Imaginem que, a despeito de toda aquela correria, ele atravessa pausadamente a passadeira. Imaginem que esse mesmo senhor entra na parte central da rotunda relvada. Imaginem o homem a esticar-se. Parem de imaginar. Façam uma nova imagem global com estas imaginações
Voltem às imaginações com um senhor que, no centro da rotunda, se aproxima da tal placa indicativa. Imaginem que esse senhor muda o sentido da placa: da terceira para a quarta saída. Imaginem que ele volta ao carro no mesmo ar compassado e com a certeza que acabou de fazer um grande gesto.
O que vos pedi para imaginar, eu não tenho de o fazer: assisti a esta situação, hoje mesmo, por volta das onze da manhã. Como se chamava ele, não o sei, mas a minha imaginação diz que tem «Esperança» no nome. Porque, o que este senhor realmente fez, foi indicar ao Portugal desleixado o caminho para o Portugal civilizado.
Carlos Malmoro

Semi-Divindades em Linha Recta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

(...)

Álvaro de Campos - Poema em Linha Recta
Basicamente, isto é o que sinto quando me chamam à atenção por um erro de um cêntimo numa folha de cálculo com onze fórmulas e um valor total e 131.734,65€. Arre. Ou, dasse...
Carlos Malmoro

1

27 julho 2006

Stop

Por estes dias, o que faz mais sentido na blogosfera é 'Post' ter como anagrama 'Stop'.
Carlos Malmoro

2

26 julho 2006

3

25 julho 2006

Pais-Natal de

...todo o Mundo: uni-vos!
Ou a prova acabada de como, nesta época do ano, vale tudo para encher páginas.

Carlos Malmoro

Porque temos todos de contribuir

...para o aumento da produtividade, este estaminé não terá férias.

Carlos Malmoro

24 julho 2006

A tirar pela amostra, vou ser um pai conservador

Nos círculos onde me movo, o meu gosto por música pesada, tipo Metallica, Sepultura, etc, não é muito bem visto. Tenho a plena consciência disso. Trata-se de um gosto muito meu: sei que é um estilo de música que quando se gosta, gosta-se muito; quando não se gosta, pergunta-se como se é capaz de ouvir uma música daquelas (ou até de como se consegue chamar música 'àquilo').
Nunca fiz a mais leve pretensão de o abandonar em prol de quaisquer conveniências de rebanho, nem me sinto particularmente tentado a explicar o prazer que eu retiro dessas sonoridades a quem tem o espírito mais fechado que um museu português ao fim de semana.
Contudo, sei que se trata de uma música eminentemente agressiva, com uma intensíssima carga energética e de rápida execução, resultando num som turbulento e poderoso . Sabendo eu disto - e não é preciso ser génio para o adivinhar - , gostaria de perguntar às mamãs e papás jovens deste país - ou de outros -, que devem ser muito modernos, assim como modernos são os papás e mamãs dos baby blogs, em que sítio concreto perderam a vossa consciência para sujeitar os vossos filhos de 2/3 anos a assistir ao concerto de Xutos/Sepultura, na sexta feira, em Vilar de Mouros?
Carlos Malmoro

23 julho 2006

A Nossa Guerra Civil

É triste. É mesmo muito triste. Hoje visitei a Galiza. Dentro da Galiza, conduzi cerca de quatrocentos quilómetros. Não houve uma travagem mais puxada, não houve uma acelaração mais brusca. Os carros conduziam na auto-estrada a 100/130, a rolar com a calma e a segurança que um carro normal proporciona neste tipo de vias. Nas estradas nacionais, não vi nenhum espertalhaço a fazer manobras perigosas. Dentro das cidades marítimas, densamente povoadas por íncolas à procura de um banho, vi respeito pelas prioridades e educação na busca do almejado - e raro - lugar de estacionamento.
E depois, começou o descalabro: em Baiona, no parque de estacionamento subterrâneo, dois carros fazem corridas, com travagens bruscas e acelerações com pneus a chiar. Olho para a matrícula: dois carros portugueses. Entro em Portugal, através da ponte de Valença. Uma senhora que estava na faixa de aceleração ao meu lado direito, força a entrada na auto estrada, como se fosse eu a ter que lhe dar a prioridade. Foi uma manobra bastante apertada. Conclusão: eu e ela acabámos com os carros quase parados em plena A3. Passados cinco quilómetros, na mesma A3, mantendo eu a velocidade de 130, ou seja, já para além do limite, sou ultrapassado pela direita por dois carros com cerca de quinze anos a uma velocidade tal que o meu carro parecia estar parado. Ou seja, tive a certeza que estava novamente a conduzir em território português.
Não sei a que se deve esta diferença de comportamentos. Se me dissessem que a Galiza se situava a três mil quilómetros daqui, eu até percebia esta mudança de atitudes ao volante. Mas não: é um povo separado de nós por um rio, que tem um parque automóvel semelhante ao nosso e com estradas em tudo iguais às nossas.
Então, por que razão existe esta abismal diferença entre ordem e selvajaria? Eu não sei responder. Sei apenas que é triste. É demasiadamente triste para ser verdade. E é realmente triste por ser verdade.
Carlos Malmoro
PS: Para não falar só da miséria portuguesa, falemos também da riqueza de um senhor português que se estabeleceu em Baiona, com a sua família, e que administra um conceito interessantíssimo: tapas-libros. Se passarem por lá visitem: come-se bem, pessoas simpáticas, e tem livros, jornais e internet à disposição.

O que realmente se passa (ii)

...no Médio Oriente:

Não há guerras justas. Se ainda ninguém disse isto, afirmo-o agora. Se alguém já o disse, resta-me assinar por baixo. Enquanto se continuar acreditar que alguma das partes do conflitos é inocente, não há paz possível.

Olho para Israel, e vejo um país que, temendo a sua comunidade ultra-ortodoxa, e baseando-se na Tora, continua a alienar território a outros países (Líbano incluído), para os colunatos, sem olhar às inúmeras resoluções da Onu em sentido contrário.
Olho para os países islâmicos circundantes e vejo escolas de terroristas, pobreza onde poderia existir bem-estar proporcionado pelo petróleo, homens-bomba e corrupção, muita corrupção a todos os níveis, através dos petrodólares.

Resultado: terrorismo suicida versus terrorismo de estado. E se o resultado é este, não pode mesmo haver virgens ofendidas...
Carlos Malmoro

O que realmente se passa

...no Médio Oriente: conseguiram pôr de novo a senhora da gadanha a ceifar o trigo e a adubar o joio.
Carlos Malmoro

Modos de vida (v)

Foi uma pessoa digna: preferiu sempre a esperança à fé e a bondade à moral.

Carlos Malmoro

22 julho 2006

A piada da semana

...por esse grande entertainer do povo luso que é Alberto João Jardim.

Carlos Malmoro

Modos de Vida (iv)

Traçou como modo de vida ser popular. Tentou praticar o Bem. Foi muito impopular. Tentou praticar o Mal. Foi muito impopular. Não praticou nada. Foi capa de revista.
Carlos Malmoro

A quem de direito II

E não é que aceitaste? E que disseste, misericordiamente, 'compreendo que se goste e penso perceber por que razões se gosta, mas nunca conseguirei gostar'. Gostei tanto do concerto dos Sepultura como dessa tua frase.
Carlos Malmoro

21 julho 2006

A quem de direito

Hoje, Sepultura; amanhã, D. Giovanni. Aceitas?

Carlos Malmoro

20 julho 2006

Dos papéis esquecidos

Na imagem, estão duas cartas minhas - uma de 1995 e outra de 1998 - que nunca enviei, e que me poderiam ter modificado a vida por completo. Uma delas é a resposta a um anúncio de emprego e a outra é uma resposta a um telefonema de uma relação anterior. Apenas três certezas tenho em relação a elas: a caligrafia era (e continua a ser) péssima; tomei a atitude correcta ao não enviá-las, e a certeza de que são demasiadadamente frágeis estas nossas existências que dependem do envio - ou do não envio - de uma carta.
E vocês, também têm cartas por enviar?

Carlos Malmoro

19 julho 2006

Inquietações Permanentes

Quando não há questões mais pertinentes a analisar, perguntamo-nos por que nome seriam conhecidos os bicos de papagaio antes da descoberta do Brasil.

Carlos Malmoro

17 julho 2006

Baby Blogs

Artigo 12°
Ninguém sofrerá intromissões arbitrárias na sua vida privada, na sua família, no seu domicílio ou na sua correspondência, nem ataques à sua honra e reputação. Contra tais intromissões ou ataques toda a pessoa tem direito a protecção da lei.
«Declaração Universal dos Direitos do Homem»

Comecei este texto por colocar a citação do art. 12 da Declaração Universal dos Direitos do Homem, como poderia ter iniciado com muitos outros artigos de outros códigos/constituições/declarações, que salvaguardam a privacidade e a imagem de cada Homem. Convém portanto lembrar que, desde que nasce até à sua morte, apenas o indivíduo poderá abdicar destes dois direitos de uma forma consciente e livre.
Vem esta introdução a propósito de uma realidade que recentemente surgiu na blogoesfera: os baby blogs. Acho uma péssima ideia, de um mau gosto tremendo e, como acima se viu, ilegal, a publicação de fotografias, de estórias do quotidiano, de diários de doenças, enfim, uma autêntica biografia não-autorizada de crianças, escritas pelos pais das mesmas, numa ânsia de mostrar o filho como quem mostra o carro novo ou o T3 junto ao mar.
Percebo que se tenha orgulho nos filhos, e que se pretenda partilhar esse gozo supremo que é ver um filho crescer. Mas, se é para isso, o Blogger permite a opção de manter o blog confidencial. Assim, parentes e amigos poderiam aceder e ver as traquinices do pequeno, sem este ficar exposto a milhões de pessoas que acedem à sua privacidade.
Agora, eu, e a miríade de pessoas que utilizam diariamente a Internet, não precisamos de saber - e nem deveríamos ter a possibilidade de o saber, a menos que uma criança de dois ou três anos tivesse capacidades para conscientemente o autorizar - não precisamos nem deveríamos ter conhecimento, dizia, das doenças que a criança padece, dos amigos que tem, do seu historial escolar ou de ver o seu aspecto físico através da reprodução de fotos ou vídeo nesses espaços. É que se é verdade que os pais têm a tutela legal dos filhos, não é menos verdade que não são proprietários dos direitos que estes detêm. Porque uma criança, antes de ser um filho, é uma pessoa.
Carlos Malmoro

Bom, Eficaz e Barato

Há um produto que os responsáveis pela manutenção dos WC's de espaços públicos de lazer/turismo deste país desconhecem. É um produto que faz milagres na limpeza, desinfecta como nenhum outro, evita odores nauseabundos e é baratinho. Uma vez que quem ainda não descobriu este produto deve viver há dois séculos, deixo-lhes com um boneco desse mesmo produto na esperança que menos pessoas passem pela inesquecível - e acreditem que não se esquece mesmo - experiência de entrar num WC destes.


Carlos Malmoro

Aquisições Para a Próxima Temporada

A erudição do Sítio da Saudade, o humor do Gato Fedorento, a lhaneza do 125_Azul, a perspicácia do Espumadamente, as actualidade da Geração Rasca (a que eu pertenço, segundo opinião abalizada de um cineasta que fez uns biscates no jornalismo, ou o contrário), a ironia do Noutra Vida e a imaginação do Arcebispo da Cantuária, passam a fazer parte da lista de links deste blog. Bem vindos sejam.
Carlos Malmoro

15 julho 2006

Para o N. e para o R.

Há quinze anos, três amigos deslocaram-se ao Estádio de Alvalade para ver a banda das suas vidas. Eu, N. e R, começámos por ouvir S.T. com 'War Inside My Head'



e acabámos a ouvir a banda que religiosmaente nos levou lá, Metallica, a tocar 'Creeping Death'



Hoje ouvimos Danças Ocultas, Nocturnos de Chopin, Nick Cave, Leonard Cohen, MPB, Jazz, Clássica, e tantas outros grupos/estilos que parecem não casar com o universo musical destas duas bandas. Mas, no meio destes nossos gostos actuais, existe sempre espaço para colocar um CD com aquele frenesim, aquela totalidade, aquele grandiosidade que representa sempre uma música de Metal. Ou seja, entre Leonard Cohen e Erik Satie, existe sempre lugar a uma boa malha de Sepultura ou Metallica. Por duas simples razões: porque foram estas bandas que nos educaram musicalmente e porque a música é sempre a melhor forma, senão a única, de recordar a juventude.
Carlos Malmoro

Vi um pouco de

televisão e tinha logo que me deparar com a Tourada TVI. Em relação à TVI, já todos sabemos que é uma tourada pegada e que nada mais de relevante há a considerar. Quanto à tourada, espero explanar os meus argumentos em apenas duas ideias muito simples.
Da questão da tradição, (em certos países, também é tradição a excisão do clitoris, apedrejamentos públicos e a lista destas tradições, infelizmente, parece não terminar nunca...), já está tudo dito e o melhor mesmo é fazer um longo silêncio para ver se essas pessoas percebem que há tradições que não valem a 'ponta de um corno'.
Depois, há a questão da religiosidade, que dizem estar inserida na tal tradição, do «espectáculo»: eles benzem-se centenas de vezes durante o mesmo, parece que assistem a uma missa antes, e depois desta, rezam uma hora. Eu, no meu agnosticismo respeitador de quem é crente, apenas gostava de lhes perguntar como é que imaginam que será o estado de espírito d'Ele depois de assistir à tortura de uma Sua Criação durante horas?
Carlos Malmoro
PS: E NÃO, NÃO HÁ NENHUMA DIGNIDADE NA MORTE DE UM ANIMAL QUE SE ESVAI EM SANGUE

14 julho 2006

Porque há dias melhores que outros

Where do I take this pain of mine?
I run, but it stays right by my side

So tear me open, pour me out
There's things inside that scream and shout
And the pain still hates me
So hold me until it sleeps

Just like the curse, just like the stray
You feed it once and now it stays
Now it stays

(...)

So tell me why you've chosen me
Don't want your grip,
don't want your greed
Don't want it

I'll tear me open, make you gone
No more can you hurt anyone
And the fear still shakes me
So hold me until it sleeps

(...)

James Hetfield - Metallica - Until It Sleeps

Código Postal

Este é o novo endereço de mail do blogue e do mafarricozinho que o sustenta:
Ficam a saber: críticas, sugestões, opiniões e comentários aos textos, mandar o autor dar uma volta, chamar-lhe nomes, contar-lhe a vossa vidinha, pedir-lhe dinheiro, pedir que se cale, declarações de amor e de ódio, pedidos de casamento e de divórcio, tudo, mas tudo deve ser encaminhado para o endereço que acima se apresenta. No guichet, prometo ter lá uma daquelas recepcionistas irritantes a atender-vos. Ou então, deixem um comentário que sempre vos poupa tempo.

Carlos Malmoro

Modos de Vida (iii)

A vida dele, de tão des-interessante, dava um blogue.

Carlos Malmoro

A hipocrisia continua.

13 julho 2006

Auto-Elogio na Terceira Pessoa

Sim, sim, ler é excelente. Mas ler um livro de 190 páginas numa noite já não é para a tua idade. Agora, após teres dormido hora e meia de domingo para segunda, resta-te andar de rastos no resto da semana. Grande proeza, Carlos, não haja dúvidas.
Carlos Malmoro

Modos de Vida (ii)


Quando se apercebeu que o tempo era o único desiderato que não conseguia domar, emigrou para Londres e acampou neste jardim perto do Big Ben. Perto do relógio mais exacto do mundo, segundo diziam, enganava-se a ele mesmo julgando que o domesticava. Sentiu-se senhor do mundo. Até à hora certeira da sua morte.

Carlos Malmoro

10 julho 2006

Modos de vida (i)

Levava a vida em busca do post perfeito.

Carlos Malmoro

Brilharetes

No meu primeiro texto de inglês, a professora pediu-me uma composição em que dissesse três coisas que gostaria de ser «quando fosse grande».As minhas respostas foram:

I pretend to be a guitar player;
I pretend to be a football player;
I pretend to be a computer engineer
.

Na altura, eu pensava que «pretend» significava «pretendo», – o menino Carlitos já sabia que toda a turma ia responder «Eu quero…», e ele fazia questão em sair-se com uns brilharetes. Ora, como muito bem sabemos, «To Pretend» significa «Fingir». A professora deu-me um 10, pela composição estar bem escrita, mas que não me podia dar mais nota por causa desse lapso.

Hoje, se a encontrasse, pedia revisão de nota: é que, para mal de quem já me ouviu a tocar guitarra, de quem já me viu jogar futebol ou de quem já colocou os respectivos computadores nas minhas mãos, eu já fui/fingi ser tudo aquilo que escrevi.

Carlos Malmoro

Perspectivas L

«- Que inscrição quer que coloque na sua sepultura?
- Por favor, não pise a relva.»

In Livro do Humor Negro

Carlos Malmoro

PS: Cinquenta post's depois, terminaram as Perspectivas. Começam os «Modos de Vida». Que também são perspectivas, mas mais perenes.

Perspectivas IL

Há cada vez mais romances a assemelharem-se a extensas notícias de jornal.

Carlos Malmoro

09 julho 2006

Uma questão de perspectiva

Uma vez que não encontrei nenhuma bandeira a dizer que não gosto da França, aqui fica o meu sentimento de hoje:

E porque um país que tem a forma de uma bota a chutar uma bola, tem uma honra a defender.

Carlos Malmoro

Eu sempre soube

...que o meu estaminé nada valia:




É que o gozo que me dá fazê-lo, a simpatia das pessoas que o visitam e a atenção daqueles que deixam nele qualquer coisita escrito não tem preço.

Carlos Malmoro

Gosto de (ii)

absolutas, sem margens para comentários, apenas deixando espaço para uma leve vénia.

Carlos Malmoro

A Feira do Livro

de Viana do Castelo estava muito bem arrumada: ao lado «Couves & Alforrecas - o Segredo da Escrita de Margarida Rebelo Pinto», estava a biografia de Lili Caneças. Um fala da escrita fútil e o outro da vida vã.

Carlos Malmoro

No cantante, a rodar,

...a senhora com a voz mais melancólica, desamparada e envolvente que conheço. Tanto assim é que os «da da da» do final da canção, conseguem dizer mais do que grandes poemas na voz de certos cantores.


Yesterday is gone
There's just today
No tomorrow.
Yesterday is gone
There's just today
No more.

Da da da da da
Da da da da da
Da da da da da.
Da da da da da
Da da da da
Da da.
Carlos Malmoro

08 julho 2006

Todos acabamos por ir, mas não poderia ser de outra forma?

Há um ano, Londres acordava normalmente para mais um dia de trabalho. Passadas umas horas, umas detonações, e o meu televisor a mostrar a morte e o sangue a espalharem-se pela Velha Albion.

Hoje, acordei normalmente para mais um dia de trabalho. Passadas umas horas, na estrada, um estrondo atrás do meu carro, e o meu retrovisor a mostrar a morte sem sangue de mais um rapaz de 18 anos nas estradas de Portugal.
Como foi? Igual, ou parecida, a tantas outras: perdeu o controlo da moto, embateu no carro que estava a ultrapassar e foi projectado contra este. A coluna não resistiu à violência do impacto. O INEM* chegou, mas a médica, depois de ver a causa, limitou-se a chamar alguém para fazer o levantamento do óbito.


Num e noutro caso, a senhora revelou os traços principais do seu carácter: fria, brutal, inesperada, inumana, selvagem e, acima de tudo, estúpida, demasiadamente estúpida para a nossa exígua compreensão.

*Uma palavra para o INEM: foram rapidíssimos a chegar ao local, com um carro apetrechado com o melhor equipamento, com pessoal especializado e demonstrando um profissionalismo que, tratasse-se aquilo de um simulacro e não de uma trágica situação real, diria que deu gosto em ver trabalhar

Carlos Malmoro

Insatisfação Humana

Eu sei e sinto que a família gosta de mim, e que me conforta e que está sempre presente. Eu sei e sinto que P. deseja-me, e que me leva onde nenhuma outra pessoa me consegue levar, e que me bebe as palavras e os sentidos. Eu sei e sinto que os meus amigos me compreendem na minha imperfeição, e que estão completamente disponíveis para aquele desabafo, e que me fazem rir com um simples olhar. Eu sei que sei e sinto tudo isto, e sei que tudo isto é o melhor que tenho na vida. Então, porquê esta vontade de mudar?

Carlos Malmoro

06 julho 2006

Retrato de um falhado quando trintão

O livro não foi publicado. A árvore ardeu num incêndio. O filho foi preterido pelo prazer vão.

Carlos Malmoro

Fair Play

Porque eles têm a mania, porque falam com beicinho, porque é o antro do Existencialismo, porque têm a mania, porque dizem os «u's» de maneira alarilada, porque pensam que são donos da União Europeia, porque têm a mania, porque têm o Jean-Marie Le Pen, porque ainda temos umas invasões atravessadas, porque têm toda aquela cagança cultural, porque dissimulam a arrogância com a fraternidade e solidariedade, porque têm a mania, por todas estas razões e muitas mais que agora não me ocorrem, a França não pode ganhar o Mundial.
Carlos Malmoro
PS: Sim, sim eu sei, tenho mau perder. E depois, qual é o problema?

04 julho 2006

Perspectivas XLVIII

com um obrigado a N. pelo mail

Nunca discutas com um idiota. Ele arrasta-te até ao nível dele e depois ganha-te em experiência.

Carlos Malmoro

Portugal Contemporâneo II

De que vale o esforço de professores, educadores, pais e demais instituições para ensinar correctamente a Língua Portuguesa, quando nos rodapés dos canais com maiores audiências e em prime-time, surgem palavras como «felecidades», «umildes», «lião» e «sêr»* ?
Em segundos destrói-se o trabalho de meses e anos.
*palavras retiradas dos rodapés da SIC e TVI, após vinte minutos de visionamento.
Carlos Malmoro

03 julho 2006

Portugal Contemporâneo I

«Deixem ver o Portugal que não deixam ver!» (Álvaro de Campos)

Começa a faltar a paciência para tanto negativismo e bota-abaixo. Não penso que tenhamos um país exemplar, mas também é leviano afirmar que os portugueses são, na sua maioria, estereótipos de concorrentes de reality-shows, imagens reflectidas dos intervenientes em telenovelas ou protótipos de personagens contidas nos jornais tablóides, como teimam afirmar muitos cronistas da nossa praça, num massacre quotidiano à nossa auto-estima. Se assim fosse, que dizer dos holandeses que inventaram o conceito de reality-show – vulgo, tele-esgoto –, dos norte-americanos que são espectadores do Jerry Springer ou do Howard Stern?, dos ingleses que consomem diariamente três milhões e meio de exemplares do jornalismo de sarjeta do The Sun, enquanto os jornais de referência da Velha Albion raramente superam o milhão de cópias vendidas?

A maioria dos portugueses, por aquilo que deles conheço, apenas deseja viver os seus dias tranquilamente, amar a família e os amigos, realizar as tarefas do dia-a-dia, não perder a esperança, acreditar no sonho, …enfim, viver uma vida com horizontes abertos. Sei que também existem os outros. Porém, penso ser de uma injustiça gritante meter tudo no mesmo saco.

Sonho com o dia em que os cronistas da nossa praça, quando deduzem que algum português famoso actuou de forma menos correcta, não generalizem imediatamente ao resto da população. E muito menos com as já gastas expressões "chapa cinco": «é o típico português», «é o país que temos» ou «é isto que somos». Mas sei que os caracteres disponibilizados pelas redacções são sempre escassos e, convenhamos, no país da 'apagada e vil tristeza' dizer mal ocupa sempre menos espaço do que dizer bem: recorre-se ao Eça ou à supramencionada citação de Camões e está feita a defesa do arrazoado.

Carlos Malmoro

PS: Este post de índole positiva não está em nada relacionado com quaisquer veleidades da equipa portuguesa no Mundial - já estava em «rascunho» há três semanas.

Descubra novamente o prazer

...de navegar na web. Dizem eles. Descubra novos problemas em navegar na web. Digo eu.


Foto retirada daqui. Um outro queixoso.

Carlos Malmoro

Eu não acredito


Carlos Malmoro

01 julho 2006

Portugal visto de fora IV

Quando os comentadores desportivos europeus afirmam que, no futebol, Portugal é o Brasil da Europa, nem sabem a razão que têm. No futebol e para além dele.


Carlos Malmoro

Portugal visto de fora III

Primeiro resultado do Google para "portuguese man":



E aqui, e como a própria fotografia deixa adivinhar, ficamos a saber que se trata de um invertebrado. Coincidência?
Carlos Malmoro

Portugal visto de fora (II)

Primeiro resultado no Google para a busca "portuguese woman":



Carlos Malmoro

Portugal visto de fora



...e traz a seguinte lengenda:
Laundry in Portugal
One thing I loved about Portugal was how people everywhere hang there laundry out regardless of income/class levels.
Carlos Malmoro

Perspectivas XLVII

«O braço que falta ao mendigo é aquele que o sustenta.»

Manuel António Pina

30 junho 2006

Referendo

O que é mais estupificador: ver todos os jogos do mundial, a seguir acompanhar os resumos, saber quem marcou e aos quantos minutos ou ver as novelas Morangos+Floribela, saber o que se vai passar e ir a sessões de autógrafos dos actores?
Carlos Malmoro

Arte Contemporânea na Casa de Banho

A propósito, ou nem por isso, deste post da Pitucha. A minha dificuldade não está tanto nos nomes das pessoas. A minha dificuldade está em saber que desenho representa a casa de banho masculina e a feminina no Museu de Arte Contemporânea da Fundação Serralves. E não sou só eu que fica ali meia-hora indeciso a olhar para o desenho inscrito na porta. Aliás, eu penso que homens e mulheres vão trocados às respectivas. É que, sinceramente, gostava que alguém me apresentasse o responsável pela brilhante ideia de colocar representações de arte contemporânea a servir de indicação para casas de banho.

Carlos Malmoro

Da alarvidade

caminhávamos abraçados junto ao rio. o suave bater da ondulação nas rochas, embalava os últimos raios de sol. do rio evanescia uma neblina dourada a anunciar que aquele era, de facto, o primeiro dia do resto das nossas vidas. a neblina não nascia do leito do rio: deixava um interstício ténue de claridade prateada. atrás de nós, uma senhora de meia-idade anuncia alto e em bom som para as amigas: «hoje, já namorei com o meu marido». ainda estou traumatizado.
Carlos Malmoro

29 junho 2006

«Nome: Refugiado»

Sempre apreciei a poesia de Manuel António Pina. Agora, desde que vivo no Norte, degusto as suas pequenas grandes crónicas juntamente com o pequeno-almoço. Na última página do JN, lá está diariamente o olhar atento sobre a sociedade, um pormenor que se torna pormaior depois de ler a sua prosa ou a doce ironia de quem já leva muitos anos de vida e muitos mais de escrita. Porque nem todos conseguem transformar um dia mundial num murro no estômago que nos deixa sem ar. A saber:
«Os números significam pouca coisa. 8,4 milhões de refugiados em todo o Mundo é um número grande de mais para tocar a pequenez do nosso coração e da nossa razão, e corre o risco de banalizar o mal e justificar a nossa resignação Mas, de repente, descobrimos alguns dos rostos humanos, demasiadamente humanos, que se diluem na desmesura dos números e sobressaltamo-nos. Ontem, Dia Mundial do Refugiado, vi um homem ler na sua língua natal um poema de Ismail Kadare intitulado "Saudades da Albânia" e romper em lágrimas, imediatamente reprimidas. Falou durante alguns poucos segundos dos filhos distantes e repetiu inconvictamente a palavra "esperança". Quando regressou ao seu lugar, no Auditório do Museu Soares dos Reis (onde a Universidade do Porto evocou a tragédia dos refugiados), parecia mais só do que nunca. Por um momento, foi, diante de nós, um ser humano como cada um de nós, e teve uma existência concreta, um passado, uma memória, e medo, e esperança, e lágrimas, antes de perder-se de novo na escuridão dos números. Provavelmente nunca saberei o seu nome, mas há-de ter um nome. Um nome por que o chamam os amigos, um nome que talvez ele próprio já tenha, quem sabe?, esquecido. Um nome, porque ninguém se chama "refugiado". »
Carlos Malmoro

Da Urbanidade

Fernando Ruas incita a "correr fiscais à pedrada".

É o que acontece depois de se assistir a jogos tipo Portugal-Holanda.

Carlos Malmoro

28 junho 2006

Não me digam que há justiça

Este computador tem andado a portar-se mal. De meia em meia hora desliga. Como castigo, vai para arranjar/passear no centro europeu da marca, em Barcelona. O dono fica por cá: como tem trabalhado bem, só tem férias em Setembro.

Carlos Malmoro
PS: Nos próximos quinze dias, o índice de postagens é capaz de descer. Para além deste, só tenho o computador do trabalho. E esse serve para isso mesmo: para trabalhar. (tão ajuizadinho que eu sou...)

Fina Ironia

In two more years, my sweetheart, we will see another view
such longing for the past for such completion
What was once golden has now turned a shade of grey
I've become crueler in your presence

They say: 'be brave, there's a right way and a wrong way'
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years, there's only two more years
Two more years, there's only two more years
Two more years so hold on

You've cried enough this lifetime, my beloved polar bear
Tears to fill a sea to drown a beacon
To start anew all over, remove those scars from your arms
To start anew all over more enlightened

I know, my love, this is not the only story you can tell
This pain won't last for ever, this pain won't last for ever

Two more years (...)

We cover our lies with handshakes and smiles
We try to remember our alibis
We tell lies to our parents he hide in their rooms
We bury our secrets in the garden
Of course we could never make this love last
I said of course we could never make this love last
The only love we know is love for ourselves
We bury our secrets in the garden

Bloc Party - Two More Years

Perspectivas XLVI

A nitidez é inimiga da imaginação.

Carlos Malmoro

27 junho 2006

«Um livro em castelhano, editado primeiro em França?»


Admito tudo na literatura: admito perfeitamente que uma mulher guarde almas numa garrafa, que um dia demore setecentas páginas a passar, que exista uma máquina de fazer gelo no deserto ou que exista uma canção que só a personagem principal consegue escutar. Mas para um livro ir parar à minha lista negra, basta que seja inverosímil.

Neste momento estou a ler «A Sombra do Vento», de Carlos Ruiz Zafón. Amigos recomendaram, foi um sucesso de vendas e, simultaneamente – o que é quase inacreditável – teve boa crítica. Tudo para ser um sucesso. Acontece que logo na página vinte, aparece um miúdo de onze anos a fazer a pergunta que intitula este post. A menos que o miúdo seja um Eduardo Prado Coelho muito precoce, não estou a vislumbrar qualquer tipo de verosimilhança, de plausibilidade, nas suas palavras - eu, aos onze anos, estava mais virado para berlindes, levantar saias e jogar à bola. Enfim, coisas realmente importantes. E posso assegurar que cresci no meio de livros e com afecto por eles.

Porque, em literatura, é muito mais crível um gato ensinar uma gaivota a voar do que um miúdo de onze anos fazer aquela pergunta.
Carlos Malmoro

As vantagens do Mundial

No Domingo, pelo fim da tarde, decidimos acabar com o que restava do fim-de-semana na praia. E qual não foi o espanto quando reparámos que não se encontrava vivalma na dita. Uma praia pública tornada privada. Apercebemo-nos depois que era por causa do futebol. Consequência: sábado, lá estaremos de novo. É que isto de uma pessoa sentir-se dono de praias tem o seu quê de glamour…E, claro, é viciante.

Carlos Malmoro

Oxalá

Li algures que a partir do próximo ano lectivo os estudantes da Universidade de Coimbra vão prestar apoio a idosos, crianças e outras pessoas carenciadas da cidade do Mondego, em regime de voluntariado.
Sendo ainda cedo para mandar foguetes, não vão eles depois começar a fechar lares e infantários a cadeado, é bastante acertada esta medida: só assim os discentes poderão ver que existe um mundo para além das paredes das universidades e, claro, dos bares e das discotecas, e que os seus problemas têm uma dimensão risível perante os que irão encontrar.
Pode ser que definitivamente se apercebam de que tudo o que toda a sociedade paga para que possam estudar, é dinheiro que não vai para outras coisas, como por exemplo, para uma ajuda mais efectiva a esses cidadãos carenciados.
Então, talvez comecem a levar os estudos mais a sério, a passear menos os livros, a convencerem-se de que a soma que pagam para estudar é irrisória, comparada com o gasto que cada ano chumbado custa ao Estado, i.e., a cada um de nós. Nem que seja pelo efeito de peso na consciência: aquele dinheiro que poderia ir em auxílio dos menos protegidos que vão apoiar, vai agora para a repetição de um ano, consequência directa dos futuros Xô doutores terem andado um ano lectivo a servir de cobaias para os efeitos nefastos que o álcool provoca sobre as capacidades cognitivas. Ou, dito mais terra a terra, consequência directa das suas infindáveis bebedeiras.
Mas isto é apenas um desejo fruto do bom senso e, como muito bem sabemos, os desejos, ainda para mais se forem sensatos, raramente se realizam.
Carlos Malmoro

25 junho 2006

Van Gogh



Carlos Malmoro

Dos Estudos

Segundo um estudo publicado hoje no jornal Público, os «Portugueses são os que menos acompanham os jogos do Mundial». Também já li um outro estudo que afirma que olhar para os seios das mulheres dá mais cinco anos de vida. E amanhã tenho a certeza que sairá um outro estudo que dirá que o meu verdadeiro nome é Cátia Vanessa.
Carlos Malmoro

24 junho 2006

Perspectivas XLV

Há dez anos tinha uma pasta intitulada "Contabilidade Analítica" onde guardava fotos de mulheres pouco vestidas. Agora tenho uma pasta "Playboy" onde dissimulo a contabilidade da empresa. Decadência ou a ordem natural das coisas?
Carlos Malmoro

22 junho 2006

Perspectivas XLIV

Não repisar na lembrança do que passou nem insistir na perspectiva do que virá.

Carlos Malmoro

20 junho 2006

Prioridades

«Maria João Pires distinguida com Prémio Juan de Borbón
A pianista portuguesa Maria João Pires foi esta segunda-feira galardoada com o I Prémio Internacional de Música Dom Juan de Borbón.
O júri, presidido pelo compositor polaco Krzysztof Penderecki, pôs em destaque «os extraordinários valores musicais da vencedora na interpretação pianística e a sua intensa, prolongada e generosa dedicação ao ensino dos jovens».
Maria João Pires, um dos nomes cimeiros do piano contemporâneo, nasceu em Lisboa em 1944, começou a tocar aos três, com quatro deu o seu primeiro concerto e matriculou-se, muito jovem ainda, no Conservatório de Música de Lisboa.

Actualmente, dedica parte do seu tempo ao ensino no Centro para estudo das artes de Belgais, trabalho pelo qual recebeu recentemente o Prémio Unesco para a defesa dos direitos humanos.

Segundo Penderecki, a decisão do júri teve em consideração, não apenas as qualidades musicais da pianista, mas também os seus valores humanos.

Assinalou, a propósito, que este Prémio é o mais importante para a música de todos quantos são actualmente atribuídos na Europa. »
As bandeiras de Portugal por tudo quanto é canto e corpo são para celebrar isto, certo?
Carlos Malmoro

A Felicidade existe

Quando era novo, costumava - mais para embeiçar meninas do que propriamente por afirmação filosófica - dizer que não existia felicidade nem infelicidade. Apenas momentos felizes e infelizes. E acrescentava que a sabedoria da vida estava em saber ultrapassar os maus momentos e saborear os bons.
Hoje, passada que está mais de uma década sobre essas afirmações, afirmo que a felicidade existe. Encontrei-a na Marina de Viana do Castelo: é servida numa taça, num estival - mas chuvoso - sábado à noite e custa a módica quantia de 3,25€. Para os mais curiosos, deixo aqui a sua aparição:

Posso garantir que ao vivo ainda é mais deslumbrante.

Carlos Malmoro

19 junho 2006

Perspectivas XLIII

A palavra é de prata, o silêncio é de ouro, a poesia é humana.

Carlos Malmoro

Mais uma vez

AAR vence.

Carlos

PS: A todos o meu mais profundo obrigado pelas palavras que aqui deixaram. Como este estaminé estava a ficar um pouco pesado, é tempo de falar de coisas fúteis, divertidas, solarengas, giras, sei lá...

18 junho 2006

O Monólogo do Silêncio

Quinze mil milhões de anos depois da origem do Universo, três a quatro mil milhões de anos depois do aparecimento das mais rudimentares formas de vida na Terra, quinze milhões de anos depois dos antropóides, cinco a seis milhões de anos depois do vosso mais remoto antepassado vaguear pelas planícies africanas, trezentos mil anos após o Homo Sapiens e cinquenta mil anos posteriormente ao Homo Sapiens-Sapiens ter colonizado a Europa, cerca de cinco mil anos após as primeiras cidades da Mesopotâmia, da invenção da Linguagem e, consequentemente, do terminus da Pré-História e do limiar da História, mais de dois mil anos após o vosso Salvador vos ter visitado, mais de oito séculos depois do vosso país ter sido fundado e mais de um minuto após a abertura mais pedagógica a que um monólogo pode aspirar, eis que decido quebrar-me a mim mesmo, ou seja, para quem ainda não desenvolveu as capacidades do Homo Sapiens-Sapiens ou não souber ler nas entrelinhas, vou romper o silêncio acerca do Silêncio.

Ao longo da peça, alguns de vós vão tossir sem nunca terem fumado um cigarro na vossa vida nem estarem constipados, outros vão murmurar à companheira coisas sem sentido e ela responder-vos-à coisas com menos sentido ainda, alguns vão ao bolso – ou à bolsa – buscar uma caneta, um isqueiro, um batôn e deixá-los-ão cair, e eu perguntar-vos-ei qual a necessidade de uma caneta, de um isqueiro ou de um batôn para que uma peça de teatro seja bem sucedida. Outros vão-se rir do texto, e o texto é trágico, outros vão deixar os telemóveis ligados, não por exibicionismos anacrónicos, é antes por uma ordem do vosso subconsciente para que, durante um segundo, possam desfrutar a paz de espírito que eu, o silêncio, não concedo nunca.


Atentai:
Nunca vos perguntastes por que é que os momentos mais desesperantes de qualquer entrevista são aqueles em que eu fico entre o entrevistado e o entrevistador?
Nunca vos perguntastes por que é que quando se pede alguém em namoro, mais angustiante do que a própria coragem de se dar esse passo, é o silêncio que se instala antes de escutardes a resposta, e que esse ínfimo momento dura horas, e a vossa cabeça só pensa que vamos ouvir uma resposta negativa ou que acabamos de viciar uma bela amizade;
Nunca vos perguntastes por que razão é que quando uma criança nasce em silêncio, o choro e os gritos são entoados pelos pais dessa criança?
Nunca vos perguntastes por que é que quando morre uma pessoa querida, mais doloroso que o acto fúnebre, é o silêncio que se instala no lugar da mesa que essa pessoa ocupava, no silêncio que se abate sobre o quarto onde dormia, é o silêncio que impera onde antes havia apartes, piadas, cumprimentos, onde antes havia pensamentos ditos em vós alta, palavras misturadas com gargalhadas, canções que vós acháveis ridículas e que agora escutais com toda atenção, com toda a saudade e com todo o regozijo que o coração humano pode comportar, enfim, onde antes havia o som da vida existe agora o silêncio da morte?

Se nunca colocastes a vós próprios estas questões, estão a ser levianos e cobardes perante mim; se nunca perguntastes por que é que sendo eu assim um elemento tão apaziguador, tão purificador, tão onírico e tão sagrado sou presença constante nos limites do vosso sofrimento, estão a ser negligentes e mentirosos perante vós próprios; se nunca vos questionastes por que é que sendo eu a fonte de eutimia eterna, o paraíso perdido, a paz, a saúde e a felicidade, em suma, a Vida, mas essa eutimia, esse paraíso, essa paz, essa saúde e essa felicidade são sempre meras consequências derivadas de causas do desassossego de espírito, da guerra, da doença da infelicidade, enfim, da Morte, é porque estão a ser hipócritas com a Humanidade e cegos para com a realidade.

Porque eu sou aquele que vos decifra esse vosso mundo bárbaro; porque eu sou aquele que vos apoquenta a alma; porque eu sou aquele que vos desagrega o amor; porque eu sou aquele que vos dita o destino, eu sou aquele a quem vós chamais de sexto sentido, eu sou aquele a que vós chamais o quinto elemento da Natureza, eu sou aquele que vós confundistes com Deus e eu sou aquele que vos recorda, durante todos e cada um dos momentos da vossa Existência, o absurdo dessa mesma Existência.

E agora que já vistes o poder de inquietação que eu possuo, agora que já sabeis que eu sou um prenúncio de sofrimento profundo, agora que já compreendestes que o ouro que dizem ser a minha essência absoluta, não é mais que a tinta dourada que reveste o Vaso de Pandora que realmente sou, com todos os males prontos a emanar do meu imo, agora que vós entendestes tudo isto, dou-vos um momento de pausa, saindo eu deste palco com a certeza de que, neste instante, já não represento para vós qualquer sublime paz, mas sim uma sumptuosa desolação.

Carlos Malmoro

17 junho 2006

Ok, eu falo sobre futebol

Mas também só digo que não precisam de ver o jogo Portugal-México.
Ele já está aqui:

Gosto de

Carlos Malmoro

Perspectivas XLII


A cavalo dado não se olha o dente. Menos pelo princípio d' «a intenção é que conta», mais por nunca esperarmos um puro-sangue.
Carlos Malmoro

16 junho 2006

Perspectivas XLI

O tamanho importa: do ecrã de cinema diz-se mágico. O da televisão adjectiva-se como «the little hopeless screen»*
Carlos Malmoro

* Leonard Cohen

Da certeza

Uma luminosidade ténue ia subjugando o silêncio do negrume da noite e revelava o espírito robusto das paredes da abadia. A aurora nascia pelos interstícios dos claustros espalhando uma luz límpida contra os blocos pardos da muralha conventual, enquanto os cantos gregorianos, que não se sabia muito bem se vinham das paredes ou dos homens, tal o abalo místico que estes propagavam, ecoavam na vastidão da nave principal da igreja. A missa primeira do dia terminava e era chegado o momento da primeira refeição. Entre pão de centeio, compotas, doces conventuais e leite com cevada, o monge alimentou pela primeira vez o corpo naquele dia.

Depois das graças pelos alimentos recebidos, o monge retirou-se para a sua cela para preparar a sua meditação diária. Hoje, tinha decidido pensar nas certezas humanas: na véspera, um noviço perguntara-lhe como poderia ter ele a certeza que, passados 20 anos, como o senhor monge, não estaria arrependido da opção que tomara. A resposta fundamentou-a em Deus: «Se tiveres sempre fé, Deus indicar-te-á o caminho».

A regularidade quotidiana com que se dedicava a estes períodos de reflexão, doutrinou-o a atentar, primeiro, no todo, e depois, na parte. Consequentemente, dividiria a sua meditação numa primeira parte relacionada com a humanidade no seu todo, e uma última com o sítio onde vivia, porque, em sua opinião, só assim poderia evitar o logro das generalizações simplistas e por vezes insidiosas.

«Meu Deus, a Humanidade precisa de mais certezas. Não basta saber que esta vida é finita e passageira, para os que têm fé, que Deus existe ou que a assumpção da incerteza da vida encerra, em si mesmo, uma certeza. Não; a Humanidade necessita de saber que é amada, que é respeitada, que os actos que a norteiam encaminham-na para um futuro melhor, enfim, que o trajecto que perfilhou, embora tumultuoso, a conduzirá a uma salvação. Ou melhor, nem é necessário tanto, meu Deus, a Humanidade precisa de saber, pelo menos, que a senda que está a trilhar fará brilhar uma luz ao fundo túnel, que é uma metáfora para Vos dizer e pedir que mostrai à Humanidade que há esperança. Ainda e sempre. Será por essa intenção que hoje rezarei.

» Meu Deus, nesta cidade a certeza é algo de exótico. As palavras mais escutadas são: presumível, putativo, possível, suposto, provável, alegado, candidato, aspirante ou pretendente, os verbos são todos conjugados no condicional e verbos como o ser, o ter, o ir, o estar, o querer e outros são sempre precedidos pelo futuro condicional do verbo poder.
»Nos meios de comunicação social, os réus são prováveis culpados e, segundo a Justiça desta cidade, os arguidos são presumíveis inocentes, mas que já sofrem a privação da liberdade nas penas preventivas como qualquer criminoso. Os candidatos a qualquer eleição já foram candidatos a candidatos e já são putativos detentores desse cargo, se as sondagens, com as suas margens de erro certeiras, assim o determinarem. Eu sei, meu Deus, que a expressão «margem de erro certeira» pode parecer um paradoxo ou laracha, mas não é: isto acontece mesmo. E é fiável…
Os governos desta cidade poderão querer distribuir de uma melhor forma os rendimentos dos impostos, poderão estar prontos construir uma nova linha de metro, poderão ser os impulsionadores de uma reforma que vai beneficiar as famílias mais carenciadas, poderão ter um projecto de desenvolvimento ecológico, … Perdão, Deus meu, que já estou a abusar dos exemplos rasteiros para Te transmitir uma coisa que Tu, com as Tuas infinitas sabedoria e vigilância já Te apercebeste, mas compreende que olhar esta cidade de fora para dentro, é, passe a hipérbole, como tentar ver o interior de um manicómio através dos seus vidros martelados: não há nada claro, nítido ou certo.
Peço-Te, pois, que faças jus ao nome que a cidade tem e Lhe reveles alguma luz. Deus meu, esta cidade precisa de uma certeza. Também por isso vou orar hoje.»
Carlos Malmoro

15 junho 2006

I call you by your name
I know not where you are
But somehow, somewhere, sometime soon
Upon this wild abandoned star

And I'm full of love
And I'm full of wonder
And I'm full of love
And I'm falling under
Your spell

Nick Cave - Spell

Da humanidade

Dois homens despedem-se dos familiares, antes de estes entrarem para o bloco operatório. Sentam-se na sala de espera, mas levantam-se e sentam-se e andam para trás e para a frente. Contrariamente ao seu quotidiano, os segundos parecem horas. Os olhares reconhecem-se. Um par de horas antes, um e outro tinham esbracejado por causa de uma prioridade numa rotunda. Naquele momento de desamparo e de impotência, apenas dizem simultanemente:
- Quer tomar alguma coisa?
Um desses homens era eu e acabámos a tomar um café.
Carlos Malmoro

Coito Interrompido

O doente passa dezoito horas em jejum de sólidos e líquidos. Passa ainda o stress do pré-operatório. A família não pensa noutra coisa durante dias. Falta ao trabalho para o acompanhar. Torres de ecrãs, cabos, monitores e demais maquinaria é deslocada para o bloco operatório. O doente desce ao bloco e despede-se do filhote. Entra. Meia hora depois dizem-lhe que não pode ser operado por um erro processual e que os Serviços Administrativos já fecharam. Só segunda-feira. Entretanto, passam quatro dias em que o tumor maligno tem a oportunidade de justificar o seu nome.
Mas parece que a selecção do país ganhou 1-0 a Angola. E isso é o que verdadeiramente importa.
Carlos Malmoro

14 junho 2006

A doze horas

do segundo round: AAR versus cancro. Aposto tudo em AAR: sei que se ele perder, perco tudo; como vai ganhar, vou ficar, aliás, continuar rico.
Carlos R.

Fernando Pessoa

13-06-1888 a ...

Carlos Malmoro

Gostava que

...Portugal vencesse o Campeonato do Mundo. Não por um qualquer patriotismo serôdio. Antes para ver a falência de certas empresas que anunciam à boca cheia a oferta dos seus produtos/serviços caso isso venha a suceder. Eu sei que não é uma atitude muito correcta da minha parte, mas também nunca gostei que me tomassem por parvinho.
Carlos Malmoro
PS: Post dedicado à Stapples, Toyota e Viagens Abreu. Três empresas que já me tentaram com essa «estratégia de marketing». Haja paciência.

12 junho 2006

A Sabedoria do Tempo

Estava a tirar uma garrafa de água numa daquelas máquinas de venda automática, quando me apercebi que, atrás de mim, o meu gesto estava a ser relatado por duas pessoas de idade:
«- Ele agora mete a moeda e escolhe o que quer.
- Mas em moedas ou em notas?
- Em moedas. Já escolheu, e agora sai a água e a ademasia*.
- E ele pegou na ademasia e meteu-a ao bolso sem conferir. Se fosse com um vendeiro**, de certeza que via se estava certa.
- É, hoje confia-se mais nas máquinas do que nas pessoas.»

Carlos Malmoro

*ademasia=troco
**vendeiro=empregado ou dono de café ou mercearia

10 junho 2006

Perspectivas XL

(statement)

Leio clássicos. Cito clássicos nos meus textos e, por vezes, nas minhas conversas. Não por vaidade intelectual, mas pela humildade de reconhecer que nunca escreverei com o génio que me permita expressar de um modo tão preci(o)so.
Carlos Malmoro

Mulland Drive

Ontem, 2:30 da manhã:
Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Foi a primeira vez na minha vida que passei naquela estrada. Paro e fico abismado. Quem me acompanha, pergunta o que se passa.

Há cerca de três meses, durante um sonho:
Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Conduzia rumo a um compromisso. Estava atrasado. Na curva, perco o controlo do carro, e embato contra uns marcos. Vou à casa que tem as luzes acesas e peço ajuda.
O resto da história – ou a explicação racional ou oculta – não interessam.
Carlos Malmoro

08 junho 2006

(Dincas, África)


No tempo em que deus criou todas as coisas,
criou o sol,
e o sol nasce, e morre, e volta a nascer;
criou a lua,
e a lua nasce, e morre, e volta a nascer;
criou as estrelas,
e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer;
criou o homem,
e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.

(Magias – versões de Herberto Helder)

06 junho 2006

Perspectivas XXXIX

Por vezes, não dizer o que se pretendia dizer é a melhor maneira de dizer o que não se disse.

Carlos Malmoro

05 junho 2006

Agradecimento Público

Xôdona Carlota:

Serve o presente como forma de agradecimento pelo facto de este estaminé ter um cantante, sem que isso signifique que os links vão parar ao rodapé do blog, nem a descrição que procede o título da chafarica* troque de sítio com o «Profile» ou os «Post Recentes» tenham emigrado para o título do blog. Isto é, o que usualmente costumava acontecer quando tentava colocar um cantante. Como tal, nomeio-a Consultora para os Assuntos Templatários do "Caixa Pandora". O contrato é vitalíco. Depois falamos da remuneração.
Para terminar, e num registo mais ajuizadinho, agradeço a cortesia que teve para comigo, dedicando-lhe a primeira música que aqui roda, tendo o blog tudo no sítio. (não resisti ao trocadilho...). Espero que goste.
Carlos Malmoro
*copirráighte Carlota

04 junho 2006

A mais bela e genial dedicatória

...que eu já li, não foi feita por nenhum grande poeta ou exímio prosador. Foi feita por António Variações. A dedicatória concretiza-se em apenas quatro palavras «A Fernando Pessoa que.». E ao não dizer mais nada do que isto, está a dizer tudo o que poderia ser dito para além disto.

Carlos Malmoro

Dúvida

Quando me dizem que «Vê-se logo que és gemiano», nunca sei se estão a inculpar-me de alguma falha imperdoável, se estão a fazer-me um rasgado elogio ou se estão apenas a demonstrar a sua suprema sapiência astrológica.
Carlos Malmoro

03 junho 2006

So when the birds fly south
We'll reach up and hold their tails
Pull up and out of here
And bridle the autumn gales
I give you my hand
The fingers unfold
To have and forever hold
To marry the untold blisses
And anchor this lost soul

Patrick Wolf - Tneigmouth - Wind in the Wires

02 junho 2006

Nacionalidade

Conduzi duzentos quilómetros entre hospitais, esperei quatro horas repartidas por diferentes salas de espera, vi gente a passar à minha frente, e andei feito saltimbanco de guichet para guichet. No meio disto tudo, não insultei ninguém, não conduzi feito Schumacher e - oh escândalo - fui educado e simpático com todo o pessoal. Uma de duas: ou estou louco, ou não sou português.
Carlos Malmoro

Avaliação dos Professores III

O mote deste século é "avaliai-vos uns aos outros"! E depois quem avalia o avaliador? Estão lançadas as bases para a criação do deus avaliador...

by Pitucha, na caixa de comentários deste post.

Carlos Malmoro

Camouflage

Por que estranhos e ínvios caminhos se metem a memória e o raciocínio para, de um momento para o outro, o pensamento saltar do jantar de sábado para a letra da música Camouflage, uma canção que não devo ouvir há 15-20 anos? Gostava que alguém me explicasse isto. Cientificamente, claro está.

Carlos Malmoro

Avaliação de Professores II

Existe uma certeza: os professores, como todos os outros profissionais, devem ser avaliados. Porém, há uma série de equívocos em toda esta história. Partindo de um pressuposto primário - avaliar significa fazer um juízo - como pode um pai ajuizar com isenção quando constitui uma parte interessada?

Depois, o outro equívoco: avaliar com objectividade. Um exemplo simples de como esta teoria é falível: um professor passa todos os alunos com dezoito. Nas provas nacionais têm a mesma nota. Outro aprova outra turma com doze, e nas provas nacionais também tiram doze. O primeiro professor é melhor que o segundo? E se os alunos de dezoito tivessem sido sempre alunos de dezoito e os da segunda turma sempre foram alunos de dez, mas nesse ano, fruto do ensino do professor, tivessem subido a nota em dois valores?

Finalmente, quem deve avaliar os professores? Como já ficou demonstrado em cima, não penso que os pais constituam bons avaliadores. Quer por serem parte interessada, quer por muitos portugueses não terem a formação necessária para o fazer. Também não penso que o ministério seja boa solução: quanto melhor forem as notas e o aproveitamento, melhores as estatísticas da UE, OCDE, etc, sobre o ensino português. Logo, melhor propaganda para o Governo (seja ele qual for). Por outro lado, os sindicatos atribuem nota vinte em piloto automático a todos os seus associados, excepto àqueles com uma cor política diferente da sua. Uma última hipótese: os professores avaliarem-se a eles mesmos. Mas lá voltaríamos nós ao velho, mas correctíssimo, pressuposto de que ninguém é bom juiz em causa própria.

Não tenho soluções. Mesmo que as tivesse, sei que existe gente muito mais abalizada para as encontrar. Apenas sei que avaliar professores pelos pais, os mesmos pais que cada vez mais utilizam a escola como depósito dos filhos, é um dos princípios do fim da escola que ensina alunos e forma cidadãos.
Carlos Malmoro

Avaliação de professores I

«(…)eu tenho adoração pelas crianças. O meu grande sonho desde sempre é ter uma espécie de herdade com um espaço enorme onde pudesse recolher todas as crianças de rua, maltratadas, desprezadas por este ciclo vicioso e por estes adultos que já foram crianças e que, infelizmente, esqueceram o que é ter sonhos e a alma carregada de esperança. Nesse sítio, daria às crianças tudo o que necessitavam: médicos, assistentes sociais, psiquiatras, psicólogos, pedagogos, educadores e eu para lhes dar tudo de mim. Porque sei que até o puto mais rebelde, mais "selvagem" se for bem orientado, no futuro tornar-se-á um exemplo de homem e que contribuirá para o bem da sociedade.(...)


Haverá algo mais mágico do que acordar, abrir a janela para a vida e saber que tudo o que fazemos é o mais correcto, o mais acertado e sem exigir nada em troca? Não há, mesmo quando me dizem que sonho muito ou que sozinha não posso mudar o mundo. Mas sei que se tivesse muito dinheiro ou alguém que depositasse total confiança em mim, que uma diferença começava a partir do momento em que tivesse nos braços uma criança de rua e todas as condições necessárias.


Lembro-me de aos 18 anos, já em P., numa aula, um professor perguntar o que queríamos da vida. Enquanto muitos ou quase todos diziam que queriam casas, carros, marido ou mulher, etc, a tonta da F. disse o que acabei de escrever e de o professor ficar de boca aberta a olhar para mim. É claro que também fui alvo de chacota por parte de alguns colegas:"Estás armada em Madre Teresa? Preocupa-te mas é contigo." Mas não consigo.


Em miúda a minha mãe ia aos arames comigo quando aparecia em casa à hora do almoço com colegas sem avisar, por saber que não tinham quase nada para comer, fora as vezes que gastava dinheiro para lhes dar coisas. Sempre fui assim e também não quero mudar. Daí estar na profissão indicada, por estar em contacto diário com todo o tipo de crianças. E enquanto não puder ter o que mais quero, dedico-me a quem tenho à minha frente.

Antes de ser professora, sou pessoa e não me envergonho de ter feito o que já fiz, de ter levado pequenos-almoços a alunos, de os ter aos fins-de-semana em minha casa, de deixar de dar aulas para os ouvir, de rir e chorar com eles e de saber que deposito muita esperança nos adultos de alguns irão ser. Tenho perfeita noção que ao ter estas atitudes, estou a ir contra as grandes pedagogias educacionais mas não me vejo apenas como alguém que despeja a matéria aos alunos, mesmo sendo olhada de lado por colegas. Mas sinto-me tão preenchida que tudo o que possam dizer, é-me indiferente.
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Isto é um excerto de um mail que me foi enviado pela minha amiga F., professora em Coimbra e Leiria. Ela vai começar a ser avaliada pelos pais dos alunos. Os mesmos pais que permitem que as crianças tenham necessidades básicas, que não a conseguem dialogar com os filhos, (senão a F. não necessitaria de os escutar e de rir e de chorar com eles.) Que avaliação é que F. irá ter por parte destes pais que não olham com um mínimo de dignidade, nem dão a mais elementar atenção aos seus próprios filhos?

Carlos Malmoro

PS: Orgulho-me de ser amigo e da pessoa que F. é. E só desejo que os meus filhos sejam educados por professores como a F.

31 maio 2006

O meu relógio

Há um anúncio da Seiko que afirma o seguinte: «Não é o vestuário, nem o carro, nem o telemóvel que diz mais sobre um homem – é o seu relógio.» Então, se quiserem ficar a saber mais sobre mim, aqui fica o bicho:



Calculo que, por estas horas, já me conheçam melhor do que eu próprio...

Carlos Malmoro

PS: E isto é para não me alongar muito a dissertar sobre a futilidade que representa tentar perceber o ser pelo que se tem vestido ou pelo que se tem para conduzir... Sai um cérebro para aquela mesa de criativos, sff.