Posso garantir que ao vivo ainda é mais deslumbrante. Carlos Malmoro
A palavra é de prata, o silêncio é de ouro, a poesia é humana.
Carlos Malmoro
AAR vence.
Carlos
PS: A todos o meu mais profundo obrigado pelas palavras que aqui deixaram. Como este estaminé estava a ficar um pouco pesado, é tempo de falar de coisas fúteis, divertidas, solarengas, giras, sei lá...
Quinze mil milhões de anos depois da origem do Universo, três a quatro mil milhões de anos depois do aparecimento das mais rudimentares formas de vida na Terra, quinze milhões de anos depois dos antropóides, cinco a seis milhões de anos depois do vosso mais remoto antepassado vaguear pelas planícies africanas, trezentos mil anos após o Homo Sapiens e cinquenta mil anos posteriormente ao Homo Sapiens-Sapiens ter colonizado a Europa, cerca de cinco mil anos após as primeiras cidades da Mesopotâmia, da invenção da Linguagem e, consequentemente, do terminus da Pré-História e do limiar da História, mais de dois mil anos após o vosso Salvador vos ter visitado, mais de oito séculos depois do vosso país ter sido fundado e mais de um minuto após a abertura mais pedagógica a que um monólogo pode aspirar, eis que decido quebrar-me a mim mesmo, ou seja, para quem ainda não desenvolveu as capacidades do Homo Sapiens-Sapiens ou não souber ler nas entrelinhas, vou romper o silêncio acerca do Silêncio.
Ao longo da peça, alguns de vós vão tossir sem nunca terem fumado um cigarro na vossa vida nem estarem constipados, outros vão murmurar à companheira coisas sem sentido e ela responder-vos-à coisas com menos sentido ainda, alguns vão ao bolso – ou à bolsa – buscar uma caneta, um isqueiro, um batôn e deixá-los-ão cair, e eu perguntar-vos-ei qual a necessidade de uma caneta, de um isqueiro ou de um batôn para que uma peça de teatro seja bem sucedida. Outros vão-se rir do texto, e o texto é trágico, outros vão deixar os telemóveis ligados, não por exibicionismos anacrónicos, é antes por uma ordem do vosso subconsciente para que, durante um segundo, possam desfrutar a paz de espírito que eu, o silêncio, não concedo nunca.
Atentai: Nunca vos perguntastes por que é que os momentos mais desesperantes de qualquer entrevista são aqueles em que eu fico entre o entrevistado e o entrevistador? Nunca vos perguntastes por que é que quando se pede alguém em namoro, mais angustiante do que a própria coragem de se dar esse passo, é o silêncio que se instala antes de escutardes a resposta, e que esse ínfimo momento dura horas, e a vossa cabeça só pensa que vamos ouvir uma resposta negativa ou que acabamos de viciar uma bela amizade; Nunca vos perguntastes por que razão é que quando uma criança nasce em silêncio, o choro e os gritos são entoados pelos pais dessa criança? Nunca vos perguntastes por que é que quando morre uma pessoa querida, mais doloroso que o acto fúnebre, é o silêncio que se instala no lugar da mesa que essa pessoa ocupava, no silêncio que se abate sobre o quarto onde dormia, é o silêncio que impera onde antes havia apartes, piadas, cumprimentos, onde antes havia pensamentos ditos em vós alta, palavras misturadas com gargalhadas, canções que vós acháveis ridículas e que agora escutais com toda atenção, com toda a saudade e com todo o regozijo que o coração humano pode comportar, enfim, onde antes havia o som da vida existe agora o silêncio da morte? Se nunca colocastes a vós próprios estas questões, estão a ser levianos e cobardes perante mim; se nunca perguntastes por que é que sendo eu assim um elemento tão apaziguador, tão purificador, tão onírico e tão sagrado sou presença constante nos limites do vosso sofrimento, estão a ser negligentes e mentirosos perante vós próprios; se nunca vos questionastes por que é que sendo eu a fonte de eutimia eterna, o paraíso perdido, a paz, a saúde e a felicidade, em suma, a Vida, mas essa eutimia, esse paraíso, essa paz, essa saúde e essa felicidade são sempre meras consequências derivadas de causas do desassossego de espírito, da guerra, da doença da infelicidade, enfim, da Morte, é porque estão a ser hipócritas com a Humanidade e cegos para com a realidade.
Porque eu sou aquele que vos decifra esse vosso mundo bárbaro; porque eu sou aquele que vos apoquenta a alma; porque eu sou aquele que vos desagrega o amor; porque eu sou aquele que vos dita o destino, eu sou aquele a quem vós chamais de sexto sentido, eu sou aquele a que vós chamais o quinto elemento da Natureza, eu sou aquele que vós confundistes com Deus e eu sou aquele que vos recorda, durante todos e cada um dos momentos da vossa Existência, o absurdo dessa mesma Existência.
E agora que já vistes o poder de inquietação que eu possuo, agora que já sabeis que eu sou um prenúncio de sofrimento profundo, agora que já compreendestes que o ouro que dizem ser a minha essência absoluta, não é mais que a tinta dourada que reveste o Vaso de Pandora que realmente sou, com todos os males prontos a emanar do meu imo, agora que vós entendestes tudo isto, dou-vos um momento de pausa, saindo eu deste palco com a certeza de que, neste instante, já não represento para vós qualquer sublime paz, mas sim uma sumptuosa desolação.
Carlos Malmoro
Mas também só digo que não precisam de ver o jogo Portugal-México. Ele já está aqui:
 A cavalo dado não se olha o dente. Menos pelo princípio d' «a intenção é que conta», mais por nunca esperarmos um puro-sangue. Carlos Malmoro
O tamanho importa: do ecrã de cinema diz-se mágico. O da televisão adjectiva-se como «the little hopeless screen»* Carlos Malmoro* Leonard Cohen
Uma luminosidade ténue ia subjugando o silêncio do negrume da noite e revelava o espírito robusto das paredes da abadia. A aurora nascia pelos interstícios dos claustros espalhando uma luz límpida contra os blocos pardos da muralha conventual, enquanto os cantos gregorianos, que não se sabia muito bem se vinham das paredes ou dos homens, tal o abalo místico que estes propagavam, ecoavam na vastidão da nave principal da igreja. A missa primeira do dia terminava e era chegado o momento da primeira refeição. Entre pão de centeio, compotas, doces conventuais e leite com cevada, o monge alimentou pela primeira vez o corpo naquele dia. Depois das graças pelos alimentos recebidos, o monge retirou-se para a sua cela para preparar a sua meditação diária. Hoje, tinha decidido pensar nas certezas humanas: na véspera, um noviço perguntara-lhe como poderia ter ele a certeza que, passados 20 anos, como o senhor monge, não estaria arrependido da opção que tomara. A resposta fundamentou-a em Deus: «Se tiveres sempre fé, Deus indicar-te-á o caminho».
A regularidade quotidiana com que se dedicava a estes períodos de reflexão, doutrinou-o a atentar, primeiro, no todo, e depois, na parte. Consequentemente, dividiria a sua meditação numa primeira parte relacionada com a humanidade no seu todo, e uma última com o sítio onde vivia, porque, em sua opinião, só assim poderia evitar o logro das generalizações simplistas e por vezes insidiosas.
«Meu Deus, a Humanidade precisa de mais certezas. Não basta saber que esta vida é finita e passageira, para os que têm fé, que Deus existe ou que a assumpção da incerteza da vida encerra, em si mesmo, uma certeza. Não; a Humanidade necessita de saber que é amada, que é respeitada, que os actos que a norteiam encaminham-na para um futuro melhor, enfim, que o trajecto que perfilhou, embora tumultuoso, a conduzirá a uma salvação. Ou melhor, nem é necessário tanto, meu Deus, a Humanidade precisa de saber, pelo menos, que a senda que está a trilhar fará brilhar uma luz ao fundo túnel, que é uma metáfora para Vos dizer e pedir que mostrai à Humanidade que há esperança. Ainda e sempre. Será por essa intenção que hoje rezarei.
» Meu Deus, nesta cidade a certeza é algo de exótico. As palavras mais escutadas são: presumível, putativo, possível, suposto, provável, alegado, candidato, aspirante ou pretendente, os verbos são todos conjugados no condicional e verbos como o ser, o ter, o ir, o estar, o querer e outros são sempre precedidos pelo futuro condicional do verbo poder.
»Nos meios de comunicação social, os réus são prováveis culpados e, segundo a Justiça desta cidade, os arguidos são presumíveis inocentes, mas que já sofrem a privação da liberdade nas penas preventivas como qualquer criminoso. Os candidatos a qualquer eleição já foram candidatos a candidatos e já são putativos detentores desse cargo, se as sondagens, com as suas margens de erro certeiras, assim o determinarem. Eu sei, meu Deus, que a expressão «margem de erro certeira» pode parecer um paradoxo ou laracha, mas não é: isto acontece mesmo. E é fiável… Os governos desta cidade poderão querer distribuir de uma melhor forma os rendimentos dos impostos, poderão estar prontos construir uma nova linha de metro, poderão ser os impulsionadores de uma reforma que vai beneficiar as famílias mais carenciadas, poderão ter um projecto de desenvolvimento ecológico, … Perdão, Deus meu, que já estou a abusar dos exemplos rasteiros para Te transmitir uma coisa que Tu, com as Tuas infinitas sabedoria e vigilância já Te apercebeste, mas compreende que olhar esta cidade de fora para dentro, é, passe a hipérbole, como tentar ver o interior de um manicómio através dos seus vidros martelados: não há nada claro, nítido ou certo. Peço-Te, pois, que faças jus ao nome que a cidade tem e Lhe reveles alguma luz. Deus meu, esta cidade precisa de uma certeza. Também por isso vou orar hoje.» Carlos Malmoro
I call you by your name I know not where you are But somehow, somewhere, sometime soon Upon this wild abandoned star
And I'm full of love And I'm full of wonder And I'm full of love And I'm falling under Your spell
Nick Cave - Spell
Dois homens despedem-se dos familiares, antes de estes entrarem para o bloco operatório. Sentam-se na sala de espera, mas levantam-se e sentam-se e andam para trás e para a frente. Contrariamente ao seu quotidiano, os segundos parecem horas. Os olhares reconhecem-se. Um par de horas antes, um e outro tinham esbracejado por causa de uma prioridade numa rotunda. Naquele momento de desamparo e de impotência, apenas dizem simultanemente: - Quer tomar alguma coisa? Um desses homens era eu e acabámos a tomar um café. Carlos Malmoro
O doente passa dezoito horas em jejum de sólidos e líquidos. Passa ainda o stress do pré-operatório. A família não pensa noutra coisa durante dias. Falta ao trabalho para o acompanhar. Torres de ecrãs, cabos, monitores e demais maquinaria é deslocada para o bloco operatório. O doente desce ao bloco e despede-se do filhote. Entra. Meia hora depois dizem-lhe que não pode ser operado por um erro processual e que os Serviços Administrativos já fecharam. Só segunda-feira. Entretanto, passam quatro dias em que o tumor maligno tem a oportunidade de justificar o seu nome. Mas parece que a selecção do país ganhou 1-0 a Angola. E isso é o que verdadeiramente importa. Carlos Malmoro
do segundo round: AAR versus cancro. Aposto tudo em AAR: sei que se ele perder, perco tudo; como vai ganhar, vou ficar, aliás, continuar rico. Carlos R.
13-06-1888 a ...
Carlos Malmoro
...Portugal vencesse o Campeonato do Mundo. Não por um qualquer patriotismo serôdio. Antes para ver a falência de certas empresas que anunciam à boca cheia a oferta dos seus produtos/serviços caso isso venha a suceder. Eu sei que não é uma atitude muito correcta da minha parte, mas também nunca gostei que me tomassem por parvinho. Carlos Malmoro PS: Post dedicado à Stapples, Toyota e Viagens Abreu. Três empresas que já me tentaram com essa «estratégia de marketing». Haja paciência.
Estava a tirar uma garrafa de água numa daquelas máquinas de venda automática, quando me apercebi que, atrás de mim, o meu gesto estava a ser relatado por duas pessoas de idade: «- Ele agora mete a moeda e escolhe o que quer. - Mas em moedas ou em notas? - Em moedas. Já escolheu, e agora sai a água e a ademasia*. - E ele pegou na ademasia e meteu-a ao bolso sem conferir. Se fosse com um vendeiro**, de certeza que via se estava certa. - É, hoje confia-se mais nas máquinas do que nas pessoas.» Carlos Malmoro*ademasia=troco**vendeiro=empregado ou dono de café ou mercearia
(statement)
Leio clássicos. Cito clássicos nos meus textos e, por vezes, nas minhas conversas. Não por vaidade intelectual, mas pela humildade de reconhecer que nunca escreverei com o génio que me permita expressar de um modo tão preci(o)so. Carlos Malmoro
Ontem, 2:30 da manhã: Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Foi a primeira vez na minha vida que passei naquela estrada. Paro e fico abismado. Quem me acompanha, pergunta o que se passa.
Há cerca de três meses, durante um sonho: Uma curva apertada para a esquerda. A delimitá-la, e a servir de protecção, dez marcos de pedra, com cerca de cinquenta centímetros de altura. Do lado de fora da curva, o terreno sofre um declive. Ao lado direito, e ainda ao mesmo nível da estrada, uma casa. No declive duas casas: uma baixa, com as luzes acesas, outra toda branca, alta, mais alta que a casa que está ao nível da estrada. Conduzia rumo a um compromisso. Estava atrasado. Na curva, perco o controlo do carro, e embato contra uns marcos. Vou à casa que tem as luzes acesas e peço ajuda.
O resto da história – ou a explicação racional ou oculta – não interessam. Carlos Malmoro
(Dincas, África)
No tempo em que deus criou todas as coisas, criou o sol, e o sol nasce, e morre, e volta a nascer; criou a lua, e a lua nasce, e morre, e volta a nascer; criou as estrelas, e as estrelas nascem, e morrem, e voltam a nascer; criou o homem, e o homem nasce, e morre, e não volta a nascer.
(Magias – versões de Herberto Helder)
Por vezes, não dizer o que se pretendia dizer é a melhor maneira de dizer o que não se disse.
Carlos Malmoro
Xôdona Carlota:
Serve o presente como forma de agradecimento pelo facto de este estaminé ter um cantante, sem que isso signifique que os links vão parar ao rodapé do blog, nem a descrição que procede o título da chafarica* troque de sítio com o «Profile» ou os «Post Recentes» tenham emigrado para o título do blog. Isto é, o que usualmente costumava acontecer quando tentava colocar um cantante. Como tal, nomeio-a Consultora para os Assuntos Templatários do "Caixa Pandora". O contrato é vitalíco. Depois falamos da remuneração. Para terminar, e num registo mais ajuizadinho, agradeço a cortesia que teve para comigo, dedicando-lhe a primeira música que aqui roda, tendo o blog tudo no sítio. (não resisti ao trocadilho...). Espero que goste. Carlos Malmoro
...que eu já li, não foi feita por nenhum grande poeta ou exímio prosador. Foi feita por António Variações. A dedicatória concretiza-se em apenas quatro palavras «A Fernando Pessoa que.». E ao não dizer mais nada do que isto, está a dizer tudo o que poderia ser dito para além disto. Carlos Malmoro
Quando me dizem que «Vê-se logo que és gemiano», nunca sei se estão a inculpar-me de alguma falha imperdoável, se estão a fazer-me um rasgado elogio ou se estão apenas a demonstrar a sua suprema sapiência astrológica. Carlos Malmoro
So when the birds fly south We'll reach up and hold their tails Pull up and out of here And bridle the autumn gales I give you my hand The fingers unfold To have and forever hold To marry the untold blisses And anchor this lost soul
Patrick Wolf - Tneigmouth - Wind in the Wires
Conduzi duzentos quilómetros entre hospitais, esperei quatro horas repartidas por diferentes salas de espera, vi gente a passar à minha frente, e andei feito saltimbanco de guichet para guichet. No meio disto tudo, não insultei ninguém, não conduzi feito Schumacher e - oh escândalo - fui educado e simpático com todo o pessoal. Uma de duas: ou estou louco, ou não sou português. Carlos Malmoro
Por que estranhos e ínvios caminhos se metem a memória e o raciocínio para, de um momento para o outro, o pensamento saltar do jantar de sábado para a letra da música Camouflage, uma canção que não devo ouvir há 15-20 anos? Gostava que alguém me explicasse isto. Cientificamente, claro está. Carlos Malmoro
Existe uma certeza: os professores, como todos os outros profissionais, devem ser avaliados. Porém, há uma série de equívocos em toda esta história. Partindo de um pressuposto primário - avaliar significa fazer um juízo - como pode um pai ajuizar com isenção quando constitui uma parte interessada?
Depois, o outro equívoco: avaliar com objectividade. Um exemplo simples de como esta teoria é falível: um professor passa todos os alunos com dezoito. Nas provas nacionais têm a mesma nota. Outro aprova outra turma com doze, e nas provas nacionais também tiram doze. O primeiro professor é melhor que o segundo? E se os alunos de dezoito tivessem sido sempre alunos de dezoito e os da segunda turma sempre foram alunos de dez, mas nesse ano, fruto do ensino do professor, tivessem subido a nota em dois valores?
Finalmente, quem deve avaliar os professores? Como já ficou demonstrado em cima, não penso que os pais constituam bons avaliadores. Quer por serem parte interessada, quer por muitos portugueses não terem a formação necessária para o fazer. Também não penso que o ministério seja boa solução: quanto melhor forem as notas e o aproveitamento, melhores as estatísticas da UE, OCDE, etc, sobre o ensino português. Logo, melhor propaganda para o Governo (seja ele qual for). Por outro lado, os sindicatos atribuem nota vinte em piloto automático a todos os seus associados, excepto àqueles com uma cor política diferente da sua. Uma última hipótese: os professores avaliarem-se a eles mesmos. Mas lá voltaríamos nós ao velho, mas correctíssimo, pressuposto de que ninguém é bom juiz em causa própria.
Não tenho soluções. Mesmo que as tivesse, sei que existe gente muito mais abalizada para as encontrar. Apenas sei que avaliar professores pelos pais, os mesmos pais que cada vez mais utilizam a escola como depósito dos filhos, é um dos princípios do fim da escola que ensina alunos e forma cidadãos. Carlos Malmoro
«(…)eu tenho adoração pelas crianças. O meu grande sonho desde sempre é ter uma espécie de herdade com um espaço enorme onde pudesse recolher todas as crianças de rua, maltratadas, desprezadas por este ciclo vicioso e por estes adultos que já foram crianças e que, infelizmente, esqueceram o que é ter sonhos e a alma carregada de esperança. Nesse sítio, daria às crianças tudo o que necessitavam: médicos, assistentes sociais, psiquiatras, psicólogos, pedagogos, educadores e eu para lhes dar tudo de mim. Porque sei que até o puto mais rebelde, mais "selvagem" se for bem orientado, no futuro tornar-se-á um exemplo de homem e que contribuirá para o bem da sociedade.(...) Haverá algo mais mágico do que acordar, abrir a janela para a vida e saber que tudo o que fazemos é o mais correcto, o mais acertado e sem exigir nada em troca? Não há, mesmo quando me dizem que sonho muito ou que sozinha não posso mudar o mundo. Mas sei que se tivesse muito dinheiro ou alguém que depositasse total confiança em mim, que uma diferença começava a partir do momento em que tivesse nos braços uma criança de rua e todas as condições necessárias.
Lembro-me de aos 18 anos, já em P., numa aula, um professor perguntar o que queríamos da vida. Enquanto muitos ou quase todos diziam que queriam casas, carros, marido ou mulher, etc, a tonta da F. disse o que acabei de escrever e de o professor ficar de boca aberta a olhar para mim. É claro que também fui alvo de chacota por parte de alguns colegas:"Estás armada em Madre Teresa? Preocupa-te mas é contigo." Mas não consigo.
Em miúda a minha mãe ia aos arames comigo quando aparecia em casa à hora do almoço com colegas sem avisar, por saber que não tinham quase nada para comer, fora as vezes que gastava dinheiro para lhes dar coisas. Sempre fui assim e também não quero mudar. Daí estar na profissão indicada, por estar em contacto diário com todo o tipo de crianças. E enquanto não puder ter o que mais quero, dedico-me a quem tenho à minha frente.
Antes de ser professora, sou pessoa e não me envergonho de ter feito o que já fiz, de ter levado pequenos-almoços a alunos, de os ter aos fins-de-semana em minha casa, de deixar de dar aulas para os ouvir, de rir e chorar com eles e de saber que deposito muita esperança nos adultos de alguns irão ser. Tenho perfeita noção que ao ter estas atitudes, estou a ir contra as grandes pedagogias educacionais mas não me vejo apenas como alguém que despeja a matéria aos alunos, mesmo sendo olhada de lado por colegas. Mas sinto-me tão preenchida que tudo o que possam dizer, é-me indiferente. »
Isto é um excerto de um mail que me foi enviado pela minha amiga F., professora em Coimbra e Leiria. Ela vai começar a ser avaliada pelos pais dos alunos. Os mesmos pais que permitem que as crianças tenham necessidades básicas, que não a conseguem dialogar com os filhos, (senão a F. não necessitaria de os escutar e de rir e de chorar com eles.) Que avaliação é que F. irá ter por parte destes pais que não olham com um mínimo de dignidade, nem dão a mais elementar atenção aos seus próprios filhos?
Carlos Malmoro
PS: Orgulho-me de ser amigo e da pessoa que F. é. E só desejo que os meus filhos sejam educados por professores como a F.
Há um anúncio da Seiko que afirma o seguinte: «Não é o vestuário, nem o carro, nem o telemóvel que diz mais sobre um homem – é o seu relógio.» Então, se quiserem ficar a saber mais sobre mim, aqui fica o bicho:  Calculo que, por estas horas, já me conheçam melhor do que eu próprio... Carlos Malmoro
PS: E isto é para não me alongar muito a dissertar sobre a futilidade que representa tentar perceber o ser pelo que se tem vestido ou pelo que se tem para conduzir... Sai um cérebro para aquela mesa de criativos, sff.
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